'Terceiro mandato para Lula traz risco ao país'
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domingo, 27 de abril de 2008
Fábio Cavazzotti<br>Reportagem Local 
A mudança na lei para permitir ao presidente Lula disputar um novo mandato tem chance remota de prosperar, mas deve deixar a população atenta. A opinião é do professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UNB), Leonardo Barreto - que esteve no final de semana em Londrina. Nesta entrevista à FOLHA, ele abordou o papel desempenhado pelo governador de Minas Gerais (PSDB), Aécio Neves, no cenário oposicionista para as eleições de 2010, as chances do governador do Paraná, Roberto Requião, e a situação do PT na era pós-Lula. A seguir, os principais trechos da entrevista:
FOLHA - O governador mineiro, Aécio Neves, é realmente um potencial candidato a presidente? Por que se fala tanto em seu nome ultimamente?
BARRETO - É importante perceber que os dois principais partidos que dominam a cena nacional, PT e PSDB, nasceram em São Paulo e são dominados pelos dirigentes paulistas. O Aécio Neves quer ser o candidato do PSDB e está numa disputa muito forte com o governador de São Paulo, José Serra, mas ele sabe que quem toma a decisão dentro do PSDB é a elite paulista do partido. Apesar de governar o segundo maior colégio eleitoral do país, ele se encontra na periferia do PSDB.
Ele tem condições de virar a mesa e ser candidato?
Ele partiu para uma estratégia muito inteligente de tentar tirar essa discussão de São Paulo e levar para o Brasil. Desde o ano passado, Aécio já vem dizendo que o PT e o PSDB não podem ficar separados no plano nacional só porque existe uma competição entre o PT e o PSDB paulista. Então, ele está tentando desestabilizar isso e a aliança (entre PT, PSDB e PSB) que está se formando em Minas Gerais reflete essa estratégia.
O que aconteceria se Aécio Neves se filiar ao PMDB para disputar o Planalto?
Isso diluiria os votos e eu acho que seria a alternativa mais perigosa para José Serra e para o PSDB. Uma analista disse dias atrás que o PSDB está caminhando para cometer todos os erros necessários para perder a próxima eleição e o primeiro é essa divisão interna. Em Brasília, já existe uma discussão muito grande de uma possível candidatura com Aécio Neves, no PMDB, na cabeça de chapa, com (o deputado federal) Ciro Gomes, um ex-governador nordestino de renome nacional, de vice pelo PSB. E os dois com a chancela do Lula. Nós teríamos aí uma chapa quase imbatível.
E onde ficaria o PT?
Pois é, o grande problema nessa equação é esse (risos)... A grande questão do PT hoje é que o partido não tem um sucessor natural. Por isso também é que as eleições municipais são importantes. Eu acho que a Marta Suplicy se torna praticamente a candidata natural do partido se vencer as eleições em São Paulo. Já a ministra Dilma é um balão de ensaio. Todo mundo a vê como possibilidade remota porque não tem experiência de campanha.
Um nome sempre ventilado no Paraná para a presidência é o do governador Roberto Requião. Nos grandes centros, é uma candidatura levada em conta?
É um nome lembrado, mas todos sabem da dificuldade do PMDB para estabelecer uma candidatura frente à diversidade de grupos que existe no partido. Para conseguir unir o PMDB só existe um remédio: se Requião começar a aparecer nas pesquisas de opinião pública como uma alternativa viável e com chance de ser eleito.
A idelogia nacional-chavista de Requião encontra eco no PMDB nacional?
Não, creio que não. Talvez ele seja encarado como uma figura mais incendiária do que gostaria a cúpula do partido.
É real a possibilidade de mudança na lei para permitir ao presidente Lula disputar um terceiro mandado?
Isso está na pauta, e por dois motivos: primeiro porque foi apresentado por um deputado do PT que é muito ligado e amigo do Lula. E em segundo lugar porque a oposição fez disso um cavalo de batalha. Faz parte da estratégia da oposição pintar o presidente Lula como um líder populista do estilo Hugo Chávez e isso caiu como uma luva para a oposição. Agora, o próprio presidente diz que não quer, mas também não pediu que não fizesse.
Como nasceu essa idéia?
É um movimento originado no terceiro escalão do PT em razão do temor, por aqueles que experimentaram uma ascenção na administração e obtiveram cargos, de perder tudo se o presidente Lula deixar o poder. É um movimento no sentido de dizer: já que não temos um candidato natural do PT, precisamos de um terceiro mandato.
Seria um casuísmo muito negativo para o país, não?
Eu acho que o próprio presidente tem noção disso. Internacionalmente seria muito prejudicial para o país, e internamente também, porque as oposições cantariam isso como um golpe e poderia gerar um risco para a estabilidade do país. Hoje, eu acho que as chances são pequenas, mas elas permanecem pequenas enquanto nós continuarmos vigilantes.


