Terceirizações atingem os setores mais lucrativos
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sábado, 01 de março de 2003
Vânia Casado<BR>Equipe da Folha 
Curitiba - Representantes de empresas concorrentes no ramo energético como a Tractebel, disseram que ''nunca entenderam'' como a Copel foi terceirizar justamente o setor mais lucrativo da empresa que é o de comercialização de energia. ''Não se pode terceirizar um produto que traz dinheiro para a empresa'', disse um representante que não quis se identificar.
A Copel terceirizou o setor de comercialização de energia para a Tradener, empresa constituída entre a Copel, que entra como minoritária, com as empresas Logos Engenharia e a D.G.W Participações, cujos proprietários são o empresário do ramo de transporte coletivo de Curitiba Donato Gulin, que também é amigo do ex-presidente da empresa, Ingo Hubert, e o ex-assessor da presidência da Copel Walfrido Ávila. Tramita na Justiça ação civil pública que questiona a parceria, porque foi constituída sem qualquer licitação.
Chama a atenção o fato de a Tradener ter sido constituída com capital inicial de R$ 10 mil e, em dois anos, ter aumentado o capital para cerca de R$ 2 milhões, enquanto a Copel perdia espaço na sociedade. Hoje a empresa movimenta cerca de R$ 20 milhões e toda comercialização de energia da estatal paranaense é feita via Tradener, mesmo nas intermediações em que ela não atua.
A Copel firmou sociedades com as empresas British Gas do Brasil, Ltda., BHP do Brasil Energia Ltda, El Paso Empreendimentos e Participações Ltda, U.E.G. Araucária Ltda. Essas parcerias marcam a entrada da Copel na exploração de usinas termelétricas, movida a gás. O empreendimento que mais deu prejuízo, segundo a atual diretoria, foi com a U.E.G. Araucária, cujos pagamentos estão suspensos.
A UEG Araucária tem como sócios o grupo norte-americano El Paso, que tem 50% das ações, a Petrobras, com 25% das ações e a Copel, com 25% das ações. A empresa foi constituída com capital social de R$ 1,1 milhão. Ocorre que a usina consumiu recursos da ordem de R$ 150 milhões, financiados pela Copel. Consta na ação que tramita na 2 Vara de Fazenda Pública, que o conselheiro Ingo Hubert decidiu liberar o empréstimo com recursos da Copel, em função da morosidade que a sócia majoritária do empreendimento, a El Paso, estava tendo na captação de empréstimos.
Além de dar o dinheiro para construção da termelétrica, a Copel ainda firmou contrato exclusivo de compra da energia gerada. ''Foi um negócio sem risco'', disse Celli, autor da ação.
O mesmo argumento foi utilizado para a Copel repassar R$ 26 milhões para a empresa DM Participações, do empresário Darci Mario Fantim. A Copel firmou sociedade com a DM Participações para constituição da empresa Foz do Chopim Energética, responsável pela construção da usina de Foz do Chopim. O presidente da Copel foi convencido que a DM estava com dificuldades em conseguir os recursos do BNDES e autorizou o empréstimo da Copel.
Nessa sociedade, a Copel também entrou com participação minoritária com 35,77% das ações. O restante, 64,23% das ações pertence à DM Participações. Além de ser o sócio majoritário, o empresário Darci Fantim ainda conseguiu contrato de venda de energia para a Copel, ''outro negócio sem risco'', comentou Celli. O advogado questiona o fato de o empresário Darci Fantim ser convidado para atuar num segmento até então desconhecido. O empresário era do ramo da construção civil e outra empresa de sua propriedade, a DM Construtora, foi uma das responsáveis pela construção da usina de Salto Caxias. Essa operação já foi condenada em primeira instância.
Outra parceria considerada duvidosa e que também está sendo questionada na Justiça foi a firmada com a Escoeléctric Ltda. Através dessa empresa, a Copel terceirizou os setores de manutenção e montagem de máquinas e usinas. Fazem parte da composição acionária da Escoeléctric a Construtora Mogno, cujos proprietários são Vera Silvia Gulin e Carlos Frederico Gulin. Vera Silvia é esposa do empresário Donato Gulin, que já participa das parcerias com a Copel como sócio da Tradener.
Além da Construtora Mogno, a empresa MBC Participações, que tem como proprietários Carlos Frederico Gulin, Ademar Cury da Silva e Simão Blinder, também faz parte da composição acionária da Elétrica. Blinder é ex-diretor de Engenharia e Construção da Copel e Cury da Silva é ex-funcionário da estatal. A PEM Engenharia, empresa paulista cujos proprietários são Roberto Ribeiro de Mendonça e Edson Simões, é a quarta empresa, além da Copel que entra na composição acionária da Escoelétric. Ademar Cury da Silva foi indicado para ser o representante legal da Escoelétric.
A Escoeletric foi formada com capital inicial de R$ 100 mil e quatro meses após, foi feito uma alteração de contrato e o capital foi ampliado para R$ 1 milhão.
Simão Blinder e Ademar Cury da Silva também são sócios da empresa Senergy Saneamento Energia e Participações Ltda. Esta empresa, junto com a Copel e outras, integrava o Consórcio Rio Farinha, que estudou o potencial elétrico de um rio no Maranhão. Como sócios ainda da Senergy aparecem: Walfrido Avila, Donato Gulin e uma empresa de nome Megacorp Participações e Administrações Ltda. No contrato, a Senergy tem capital de apenas R$ 12 mil, rateado entre os seus sócios gerentes.
A empresa Momento Engenharia de Construção Civil Ltda firmou sociedade com a Copel em dois empreendimentos: Nova Holanda Agropecuária S.A. e Consórcio Foz do Chopim Energético. A Momento tem como sócio Lauro Luiz Leone Vianna, parente direto do ex-superintendente da Copel Geração, Luiz Fernando Leone Vianna.


