Curitiba - Em tom de despedida, o governador Jaime Lerner diz que tem viajado pelo interior do Estado, mais do que quando foi candidato, para agradecer a população o apoio que diz ter recebido. Nestas horas, o ônus da popularidade arranhada não pesa. ‘‘Se pudesse, ficaria mais 10 dias no governo, para agradecer.’’ Na tranqüilidade de quem não precisa de votos neste ano, ao final de uma solenidade no Palácio Iguaçu, no último dia 21 de agosto, Lerner falou de seu futuro, em entrevista à Folha, e fez uma breve avaliação de sua passagem pelo governo do Estado. A seguir os melhores trechos:
Folha - O que o senhor pretende fazer depois que deixar o governo?
Lerner - Eu pretendo me dedicar a minha atividade como arquiteto e planejador de cidades. E também não estou abandonando a área política. O fato de eu não ser candidato não significa que pendurei o celular. Eu continuo atento, continuo sempre participando da vida política brasileira. Não é nenhum ato de aposentadoria.
Folha - O senhor deixou de lado o sonho presidenciável?
Lerner - Eu nunca tive sonhos neste sentido. Na verdade, o fato de exercer sucessivamente cargos importantes constitui numa qualificação permanente. O objetivo de cada um é se qualificar cada vez mais.
Folha - O senhor pretende morar em Paris?
Lerner - Não pretendo morar, embora eu tenha essa possibilidade como presidente da União Internacional dos Arquitetos. Eu posso administrar daqui, pois os meios eletrônicos permitem isso. Claro que terei que fazer umas cinco viagens por ano para participação de reuniões. A sede oficial da União Internacional dos Arquitetos é em Paris, mas pretendo continuar morando aqui em Curitiba.
Folha - Como o senhor sente sua popularidade hoje? Segundo o Datafolha, o senhor tinha 70% de aprovação no início de seu primeiro mandato e as pesquisas mais recentes apontaram 26%.
Lerner - Não. Nós temos que o índice de aprovação é a soma de bom, ótimo e regular. Temos acompanhado e ele tem crescido. Esse somatório dá 66%. Mesmo que não se considere o regular, ultrapasso 50%. É uma aprovação por parte da população do Estado. E a tendência, eu tenho certeza, é de aumentar, porque cada vez mais estamos concluindo obras novas e a população vai metabolizando toda a transformação que aconteceu em nosso Estado.
Folha - O senhor continua sendo favorável à reeleição?
Lerner - Continuo, mas entendo que esta é uma matéria que pode ser revista.
Folha - Qual foi o momento mais difícil para o senhor durante seus dois mandatos? O senhor enfrentou problemas com os sem terra, a privatização da Copel...
Lerner - O que foi mais difícil? (sete segundos pensando) É a gente saber que o Estado se transformou, avançou e que, às vezes, ainda demora a compreensão disso. Mas eu não considero momentos difíceis, eu só tive momentos de alegria. Porque eu sempre tive estrutura emocional para saber que a função pública exige, às vezes, decisões de responsabilidade, que num primeiro momento não parecem as decisões mais simpáticas. Tomei tantas decisões difíceis, mesmo no tempo em que fui prefeito de Curitiba, e o resultado apareceu. É necessário ter a coragem de tomar decisões, ter a coragem de transformar. É óbvio que esses momentos são difíceis, mas a satisfação de ver a transformação acontecer compensa todos eles.
Folha - Foi mais difícil ser governador do que prefeito?
Lerner - Não. Sempre é difícil e sempre é gratificante. (M.K.)

Sempre tive estrutura emocional para saber que a função pública exige, às vezes, decisões de responsabilidade.

(O mais difícil) é a gente saber que o Estado se transformou, avançou e que, às vezes, ainda demora a compreensão
disso.

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