Brasília - Roberto Jefferson, o homem que denunciou o Mensalão há 11 anos e esteve preso por 14 meses, concedeu uma entrevista exclusiva domingo à FOLHA, enquanto assistia à votação do impeachment de Dilma Rousseff. Como se pode ver por suas respostas, ele acreditava na vitória do sim. Ex-deputado federal, ex-presidente do PTB, Jefferson viveu o episódio do impeachment de Fernando Collor, quando atuou em defesa do ex-presidente. Agora, ele acredita que Michel Temer tem habilidade e experiência para pacificar o País e iniciar a reconstrução nacional. Veja os principais trechos da entrevista com o político do PTB:

O dia 17 de abril já passou à história. Como será o dia 18?
Terá de ser um dia de humildade. Na vitória, é preciso ser magnânimo, respeitar os derrotados. Precisamos buscar reconstruir o Brasil sem ódio, sem revanchismo, sem derramamento de sangue, sem dividir o País. Isso é fundamental.


Michel Temer tem condições para seguir o exemplo de Itamar Franco?
Ele é tão hábil quanto foi o presidente Itamar. O Temer é um homem de consenso. Já presidiu esta Casa por duas vezes, quando eu era deputado. É um homem agregador, conciliador. Ele vai buscar a superação da crise unindo a todos.

Qual será o próximo passo para o Congresso Nacional? Eduardo Cunha fica ou sai?
Cunha não se sustenta depois do impeachment. E isso não por causa da Câmara. Aqui ele tem uma base sólida. Ele valorizou sobremaneira o trabalho dos parlamentares e enalteceu o Poder Legislativo. Apesar de todas as acusações que pesam contra ele, Cunha elevou o Parlamento brasileiro. Hoje a Câmara é respeitada pelo povo – o povo que está aqui na porta. No Supremo, não tem jeito. Com o impeachment, a missão de Eduardo está cumprida; a missão para qual ele se programou, pela qual ele trabalhou. Dentro de 15 ou 20 dias, ele será afastado pelo Supremo Tribunal Federal. Só não fizeram isso antes para não parecer que era uma agressão ao Legislativo, um vilipêndio à vontade do povo brasileiro.

Qual foi a influência dos movimentos de rua na decisão do Congresso? Esses movimentos fizeram surgir novas lideranças?
Até agora, esses movimentos não lançaram lideranças. Aqui no Parlamento eu vejo que saiu muito fortalecida a liderança do [deputado federal Jair] Bolsonaro. Ele é identificado fortemente com as manifestações populares. Tem 10% nas intenções de voto para a Presidência da República. É impressionante. Sei que há dirigentes dos movimentos que se destacaram, mas não saberia dizer o nome de nenhum no momento. Para que se consolidem como líderes, precisam amadurecer entender que a política se faz também no Parlamento, não só nas ruas.

Quando o sr. denunciou o Mensalão, em 2005, imaginava que um dia pudéssemos chegar ao dia de hoje?
Jamais, jamais. Pensei que derrotaríamos o PT na eleição de 2006. Mas o PSDB e o DEM entenderam que era preciso deixar o Lula "sangrando" até eleição – mas ele se recuperou. Pensei que iríamos derrotar o Lula no voto, na eleição seguinte. Nunca imaginei que fôssemos viver um novo processo de impeachment, 24 anos depois do Collor.

Os movimentos sociais que lutaram contra o impeachment podem causar algum tipo de instabilidade nos próximos meses?
Penso que o Movimento Sem-Terra, Movimento Sem-Teto, CUT, UNE e outros movimentos de esquerda precisam de uma ação do presidente Temer. Vou conversar com ele e sugerir que ele envie ao Congresso um projeto de lei exigindo CNPJ, prestação de contas e responsabilidade desses movimentos. Ali não pode ser um valhacouto de bandidos ou um grupo de guerrilheiros. Precisamos estabelecer o que MST e seus congêneres podem fazer – e não podem fazer terrorismo nem vandalismo. Os limites da vida democrática são definidos pelo regime da lei. Ninguém está acima da lei.

Temer vai enfrentar dificuldades sérias?
Ele vai enfrentar uma grande resistência da esquerda, que está ressentida. É preciso ter paciência e rapidamente criar uma agenda econômica que reacenda a esperança do povo brasileiro. Não é apenas a esperança de esperar. É a esperança do verbo esperançar, a esperança em ação. Precisamos colocar em ação o sentimento positivo para reconstruir o Brasil.

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