Temer terá de mostrar reformas rápidas
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domingo, 15 de maio de 2016
Mateus Fagundes<br>Agência Estado 
São Paulo - O presidente interino Michel Temer (PMDB-SP) terá de assumir o Planalto fazendo reformas rápidas para conquistar o apoio da sociedade, que está altamente polarizada ao fim do processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT), na opinião do cientista político da Fundação Getulio Vargas (FGV) Carlos Pereira.
Em entrevista à reportagem, o professor avaliou que o peemedebista vai aproveitar o amplo apoio congressual e a experiência de bastidores do PMDB para ditar o ritmo de seu governo. Além disso, a entrada de Temer significa um redesenho do mapa partidário brasileiro. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.
O senhor acredita que Temer enfrentará problemas no Congresso como Dilma enfrentou?
Acho que Michel Temer tem muita chance de conseguir uma ampla maioria no Congresso. Ele está entrando com muita legitimidade, com uma maioria muito ampla, super majoritária, inclusive com gordura para apoiar reformas constitucionais. Mas o principal problema dele não é o Congresso, é a sociedade.
Por quê?
Porque ele chega ao poder sem o voto popular. Na verdade, Temer não é muito popular. É um político muito experiente, mas é um político de partido, de bastidor. Ele tem muita habilidade com outras legendas, com atores políticos, com o jogo congressual. Mas a sociedade está muito polarizada com o impeachment, e ele terá que conversar de forma clara com essa sociedade para expor os seus planos.
O senhor acredita que ele vai apresentar as reformas de maneira rápida?
Claro. Novos governantes têm de seis a nove meses em que a própria sociedade e os agentes políticos dão o benefício da dúvida. Mas este é um caso excepcional, ocorrido após um processo de impeachment. Por isso, acho que Temer vai chegar arrepiando, mostrando todas as suas cartas. Até mesmo porque seu governo será curto, e pode ser ainda menor se o TSE impugnar a chapa Dilma-Temer. O vice dispõe desta informação e sabe que não tem grau de liberdade para esperar ou errar. Isso tudo depende, porém, de coragem e habilidade. E Temer já mostrou que tem condições de aproveitar esta janela de oportunidade.
O PMDB tem sido coadjuvante na política nacional há mais de 20 anos. Ele vai conseguir se articular para ser líder deste governo?
Sim. Desde 1994, o PMDB aprendeu a viver em coalizão, primeiro do governo tucano e depois do petista. Neste período, acumulou aprendizado como coadjuvante. E esse papel gerou expertise para o partido gerenciar problemas de coalizão
Que o PT não conseguiu.
O PT fez coalizões muito heterogêneas, sem levar em conta o peso político de seus parceiros. Com o tempo, as relações foram só piorando e o preço dos parceiros era inflacionado. Daí utilizou-se o expediente de esquemas como o mensalão e o petrolão. A raiz de toda a crise política que está tendo seu ápice agora decorre da incapacidade do PT de gerenciar uma coalizão.
Qual o futuro do PT pós-impeachment?
O PT vai desidratar. Já vemos vários candidatos às prefeituras este ano que migraram para outros partidos, principalmente aqueles mais independentes da ajuda financeira do PT e da figura de Lula. Ao final de tudo isso, o PT vai acabar sendo um partido de médio a pequeno e ainda vai sofrer bastante, a depender da velocidade e do grau de consequências das punições dos principais líderes petistas no judiciário em função da Lava Jato. Mas isso tudo é natural da democracia. No momento em que os partidos políticos perdem, eles tendem a se reorganizar.
E o PSDB? Qual o papel dos tucanos no governo Temer?
O PSDB enfrenta um dilema inverso ao do PMDB, que optou por uma carreira legislativa depois de 1994. Naquela época, o PSDB foi para uma trajetória presidencial. Agora, depois das sucessivas derrotas e do governo Temer, ele vai para uma trajetória legislativa. Assim, o PSDB vai ser relevante no governo Temer, na articulação do Congresso. Outras chances vão, consequentemente, se abrir e o partido começará a trilhar um caminho de legislativo.
Até no prazo mais longo?
Ainda é muito cedo para prever o que vai acontecer com o PSDB no longo prazo. Vai depender muito das pretensões do partido e do espaço que o PMDB der aos tucanos em sua coalizão. Mas quando se começa a trilhar um caminho para o legislativo, os riscos de uma mudança para o eixo do executivo são grandes.


