Temer diz em carta ser 'vítima' de conspiração
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terça-feira, 17 de outubro de 2017
Tânia Monteiro e Daiene Cardoso<br>Agência Estado 

Brasília - Preocupado com os desdobramentos da nova crise entre o Planalto e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), depois da nota distribuída pelo seu advogado Eduardo Pizarro Carnelós classificando de "vazamento criminoso" o vídeo com a delação de Lúcio Funaro, o presidente Michel Temer resolveu escrever uma carta de quatro páginas dirigida aos parlamentares não só para se defender das acusações feitas pelo operador do PMDB, mas para dar "explicações", "satisfações" e "desabafar" diante da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra ele.
"É um desabafo. É uma explicação para aqueles que me conhecem e sabem de mim. É uma satisfação àqueles que democraticamente convivem comigo", disse Temer, que não se refere à trapalhada nota de seu advogado, ou aos posteriores "esclarecimentos" dele de que chamou de vazamento criminoso porque não sabia que estava publicado no site da Câmara.
O episódio gerou um novo desgaste na relação entre o presidente da Câmara Rodrigo Maia e Temer, às vésperas da votação da segunda denúncia contra ele, no Congresso. Maia é o responsável por ditar o ritmo da votação e, nos bastidores, já promete retaliação ao presidente.
Na carta, Temer prega ainda "a pacificação" e cita sua disposição de conversar e dialogar, alegando que não acredita na tese do "nós contra eles" mas "na união dos brasileiros", com "serenidade, moderação, equilíbrio e solidariedade" certo de que, com esta carta, "a verdade dos fatos será reposta".
Temer começa a carta enviada a deputados e senadores falando da sua "indignação" e diz que, por isso, decidiu se dirigir aos parlamentares, apesar de muitos o aconselharem a não se pronunciar. "Para mim é inadmissível. Não posso silenciar. Não devo silenciar. Tenho sido vítima desde maio de torpezas e vilezas que pouco a pouco, e agora até mais rapidamente, têm vindo à luz. Jamais poderia acreditar que houvesse uma conspiração para me derrubar da Presidência da República. Mas os fatos me convenceram. E são incontestáveis", diz o presidente que passa a listar os ataques sofridos desde a delação da JBS.
Ele faz contundentes críticas à atitude do ex-procurador Rodrigo Janot que teria acertado com Joesley Batista as acusações contra ele, que reiterou serem mentirosas e fazerem parte de "uma urdidura conspiratória". "Tudo combinado, tudo ajustado, tudo acertado, com o objetivo de: livrar-se de qualquer penalidade e derrubar o presidente da República", desabafou.
Segundo Temer, a delação divulgada agora, deste "delinquente conhecido de várias delações premiadas não cumpridas para mentir, investindo contra o presidente, contra o Congresso Nacional, contra os parlamentares e partidos políticos". Depois de reiterar que é "vítima de uma campanha implacável com ataques torpes e mentirosos, que visam a enlamear meu nome e prejudicar a República", Temer se disse "indignado" de "ser vítima de gente tão inescrupulosa" e avisou que todos estes episódios "estão sendo esclarecidos".
Após agradecer o "apoio decisivo" dos deputados e senadores que "possibilitou a retomada do crescimento no País", o presidente apresenta dados da economia de hoje comparado ao período em que chegou à Presidência da República. Mais cedo, o ministro da Secretaria Geral, Moreira Franco, havia divulgado dados semelhantes em suas redes sociais.
Por fim, o presidente fala da agenda de "modernização reformista do País" que, na sua avaliação, avança com medidas aprovadas pelo Congresso como o teto de gastos públicos, lei das estatais, modernização trabalhista, reforma do ensino médio, proposta de revisão da Previdência, simplificação tributária. "Em toda a minha trajetória política a minha pregação foi a de juntar os brasileiros, de promover a pacificação, de conversar, de dialogar", disse o presidente, pregando a "união dos brasileiros".
MAIA NO CHILE
Em crise com o Palácio do Planalto, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), viajará nesta semana para o Chile. Maia deverá estar fora do Brasil justamente na semana em que a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Casa votará a segunda denúncia contra Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência).
Segundo assessores da Câmara, Maia decolará para Santiago, capital do Chile, na quarta-feira (18) de onde deve retornar no dia seguinte (19). Na cidade, estão previstos encontros do parlamentar brasileiro com a presidente do Chile, Michele Bachelet, e com o presidente da Câmara dos Deputados daquele país, Fidel Espinoza Sandoval.
Maia estará no exterior justamente nos dias em que a CCJ deve, de fato, votar o parecer do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) sobre a denúncia contra Temer e os ministros. No relatório, o tucano recomendou a rejeição da denúncia. A discussão do parecer começará nesta terça-feira (17). A votação, por sua vez, está prevista para quarta-feira (18), quando o presidente da Câmara estará decolando para o Chile, país onde nasceu.
CENÁRIO
O vice-líder do governo na Câmara, Beto Mansur (PRB-SP), disse que o conteúdo da delação premiada do doleiro Lúcio Funaro e a operação policial contra o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) deflagrada na manhã dessa segunda (16) não alteram o cenário pró-governo na apreciação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, nesta terça (17). "Na minha opinião não muda absolutamente nada. Temos um número de votos consolidados", declarou.
Mansur disse ainda que a carta distribuída por Temer aos parlamentares é "muito positiva". "É uma carta explicativa de uma pessoa acusada e que está se defendendo", resumiu. Nas contas de Mansur, o governo poderá alcançar os mesmos 41 votos conseguidos na primeira denúncia na CCJ porque, desta vez, a denúncia é "mais fraca". "Acredito que vamos ter uma votação muito expressiva, como na primeira denúncia", comparou.
O vice-líder também minimizou o clima de animosidade entre Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e concluiu que ao dar publicidade aos vídeos de Funaro, Maia agiu com o respaldo do Supremo Tribunal Federal (STF). "Não vejo nenhum tipo de problema de relacionamento entre Maia e Temer", desconversou.
OPOSIÇÃO OTIMISTA
Enquanto os governistas tentam mostrar otimismo, na oposição a leitura é de que o governo começa a entrar em desespero com o esfacelamento da base aliada. "O governo perde força e não consegue se entender nem com seu aliado de primeira hora (Maia)", comentou o líder da minoria na Câmara, José Guimarães (PT-CE).
Na avaliação dos oposicionistas, o ambiente do momento é diferente de dois meses atrás, quando foi enterrada a primeira denúncia, porque há sinais de desagregação dos aliados. "A situação se agravou muito de quinta-feira para cá", concluiu o petista. Segundo o líder da minoria, os vídeos de Funaro e a operação contra Vieira Lima ajudaram a aumentar o número de governistas propícios a mudar o voto pela admissibilidade da segunda denúncia.


