A Itália pede a extradição de Battisti porque ele foi condenado em seu país pelo assassinato de quatro pessoas
A Itália pede a extradição de Battisti porque ele foi condenado em seu país pelo assassinato de quatro pessoas | Foto: Miguel Schincariol/AFP



Brasília e São Paulo - O presidente Michel Temer (MDB) assinou decreto nesta sexta-feira (14) extraditando o terrorista italiano Cesare Battisti. A medida será publicada em edição extra do Diário Oficial da União, com efeito imediato. A decisão, tomada em reunião no Palácio do Planalto, autoriza o Ministério da Justiça a iniciar o processo de entrega do terrorista às autoridades italianas. Segundo a Polícia Federal, contudo, ele está foragido.

Na quinta-feira (13), o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux determinou a prisão do italiano, que vive em liberdade no Brasil desde 2010.
"O presidente achou que era o momento de assinar, já que não há mais obstáculos após a decisão do ministro da Suprema Corte. Agora, cabe às forças policiais localizá-lo e detê-lo", disse à Folha a ministra-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Grace Mendonça.

A defesa do italiano foi ao STF contra a decisão de Temer. Os advogados Igor Tamasauskas e Otávio Mazieiro reiteraram pedido feito horas antes para que a corte suspenda o mandado de prisão dele e impeça sua extradição. No recurso, a defesa argumentava a impossibilidade de extradição e de revisão do ato do ex-presidente Lula (PT), que em 2010 decidiu pela permanência de Battisti no Brasil. Na época, o Supremo havia decidido pela extradição, mas o então presidente, valendo-se do direito de dar a palavra final, resolveu deixá-lo no País.

A Itália pede a extradição de Battisti porque ele foi condenado em seu país pelo assassinato de quatro pessoas. O STF deliberou, ao discutir o caso, que os crimes que levaram à condenação do italiano não foram crimes políticos.
Na manhã desta sexta-feira, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, disse em seu perfil pessoal no Twitter que a Itália pode contar com ele para a extradição.

Imagem ilustrativa da imagem Temer decide extraditar italiano  Cesare Battisti, que está foragido



EVENTUAL FUGA
No pedido de prisão feito na quinta-feira, a procuradora-geral da República Raquel Dodge afirmou que "revela-se não apenas necessário, mas premente e indispensável a custódia cautelar, seja para evitar o risco de fuga, seja para assegurar eventual e futura entrega do extraditando à Itália".

O futuro ministro da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto Santos Cruz, reforçou que a avaliação deve ser jurídica. "É desnecessário para um país que tem tanto problema como o nosso ficar se desgastando com uma discussão política de um fato criminoso", afirmou. Para o general, é a Justiça que tem de definir o destino do italiano. Ele disse que a Justiça julgou Battisti e o considerou criminoso e que, por isso, não vê aí um caso político.

LUGAR INCERTO
Advogados e amigos do ex-ativista Cesare Battisti não conseguem falar com ele desde quinta-feira.
"Normalmente nestas situações a gente acorda com a prisão feita. Ele deve ter tomado alguma decisão. É uma decisão personalíssima que só cabe a ele mesmo tomar. Cesare sabe quais são as consequências de se entregar ou não se entregar. Aí é ele com a consciência dele", disse o advogado Igor Tamasauskas.

Amigos também tentaram falar com Battisti por telefone, mas o italiano não atendeu às ligações. Até o início da manhã desta sexta ( 14), eles achavam que o escritor poderia estar na casa de algum conhecido para escapar do assédio da imprensa, principalmente a italiana.

As fugas têm sido uma constante na vida de Battisti desde que ele escapou da prisão de Frosinone, na Itália, em outubro de 1981. Ele foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato de quatro pessoas quando integrava o grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), considerado terrorista, nos anos 1970.

De seu país natal, ele foi para a França, México e novamente França, onde passou quase 20 anos sob a proteção do regime François Mitterrand. Depois da chegada de Jacques Chirac ao poder, ele fez um périplo pela Espanha, Portugal, Ilha da Madeira, Ilhas Canárias e Cabo Verde, até chegar em Fortaleza.

No Brasil, recebeu apoio no governo Luiz Inácio Lula da Silva, que em seu último dia como presidente assinou um decreto proibindo a deportação do italiano. No ano passado, já durante o governo Michel Temer, foi preso na fronteira com a Bolívia e acusado de evasão de divisas. A trajetória foi relatada pelo próprio Battisti no livro "Minha fuga sem fim", lançado em 2009

Segundo amigos, ele vive de traduções para editoras francesas e dos livros que escreve. O mais recente, "Marco Zero", é ambientado em Cananeia. Moradores da cidade dizem que ele não é visto há mais de uma semana nos bares onde costuma tomar cerveja e falar sobre futebol.

Antes da eleição, ele recebeu a visita da filha e do neto que moram na França. De acordo com relatos, ele tem tentado demonstrar tranquilidade, mas não consegue esconder a preocupação desde a eleição de Jair Bolsonaro (PSL).

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