Temer assume Presidência com discrição
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quarta-feira, 28 de janeiro de 1998
Agência Estado 
Ed Ferreira/Agência Estado
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ModéstiaO deputado Michel Temer prefere não se sentar na cadeira FHC nem usar a mesa do titular: prudência no cargoPresidente interino da República desde ontem à noite, o deputado Michel Temer (PMDB-SP) decidiu manter discrição nos cinco dias em que substituirá o presidente Fernando Henrique Cardoso, em viagem à Suíça. Temer assume o cargo porque o vice-presidente, Marco Maciel, também está viajando, para a América Central.
O presidente da Câmara não vai se sentar na cadeira de Fernando Henrique Cardoso nem pretende ocupar a mesa de trabalho do titular. Se depender dele, Fernando Henrique encontrará tudo do jeito que deixou. Espero que nada aconteça nestes dias, disse. Se tiver de fazer algum pronunciamento, o presidente interino gostaria de falar sobre a área social. Meu assunto preferido seria o combate à miséria, à pobreza e ao desemprego.
E, se tivesse de fazer uma plataforma de governo, Michel Temer escolheria também a área social, baseada em três eixos: segurança, saúde e educação. Ele acha que estas áreas, agora, começam a ter destaque no atual governo. As reformas constitucionais vão permitir que o próximo presidente volte-se quase exclusivamente para as questões sociais. A segurança, disse Michel Temer, é uma preocupação deste governo. O ministro da Justiça, Íris Rezende, está anunciando a construção de 52 presídios.
Não seria o caso de, em vez de construir presídios, fazer uma política social que prevenisse a criminalidade? Temer acha que é necessário tomar esta atitude, mas é preciso olhar a realidade de agora, em que os presídios estão superlotados. Só em São Paulo faltam 40 mil vagas nos presídios. Se por acaso o presidente Fernando Henrique lhe pedir um conselho, para a campanha à reeleição, Temer disse que vai sugerir um trabalho na área social.
SolidãoDesde que o deputado Paes de Andrade (PMDB-CE) utilizou o cargo de interino para lotar um Boeing com políticos e amigos rumo a Mombaça, sua cidade natal, todos os presidentes da Câmara que substituíram o presidente da República titular decidiram ser contidos. Temer disse que nem precisaria da lição do passado, porque sempre foi assim. Discretamente, fui duas vezes secretário de Segurança de São Paulo, pré-candidato ao governo do Estado, deputado, líder do PMDB, presidente da Câmara e agora, presidente interino da República.
Além de dispensar a cadeira e a mesa de Fernando Henrique, Temer não queria nem mesmo ficar no gabinete. Perguntou se não havia uma sala ao lado, para trabalhar nestes dias, até as 8 horas do domingo, quando o titular retorna de uma viagem à Suíça. Disseram que não havia a sala, contou. Segundo Temer, o gabinete de Fernando Henrique é muito diferente do da presidência da Câmara. Na Câmara é tudo ruidoso, o maior burburinho; na Presidência, às vezes dá a impressão de que é tudo muito solitário.
Temer foi informado de que existem despachos de rotina, diariamente. São os encontros com os ministros da Casa Civil e da Casa Militar e com o secretário-geral da Presidência. Hoje, ele terá uma reunião com o secretário de Políticas Regionais, Fernando Catão. Outros encontros haviam sido marcados para ele como presidente da Câmara e foram transferidos para o Palácio do Planalto - com seis ou sete prefeitos do interior de São Paulo, com deputados e com o presidente da Associação Comercial de São Paulo, Élvio Aliprandi.
Ontem de manhã, Temer chamou a seu gabinete o líder do PFL, Inocêncio Oliveira (PE), que na presidência da Câmara ocupou por 11 vezes o lugar do presidente Itamar Franco. O Temer queria saber como é aquilo lá e eu lhe dei três conselhos, afirmou Inocêncio: Discrição, discrição e discrição. Inocêncio também disse a Temer que ocupar a cadeira e a mesa do titular dá um grande azar, principalmente para quem só está na interinidade.


