Rio Estas serão as eleições do telemarketing político, mídia que se consolidou com a privatização das telefônicas e se espalha cada vez mais pelo interior do País. Com o avanço tecnológico nessa área, hoje um candidato pode gastar de R$ 20 mil a R$ 1,5 milhão para montar um call center, dependendo dos softwares e plataformas que escolher. E pode atacar adversários à vontade, sem sofrer a fiscalização dos tribunais eleitorais. O único risco é irritar o eleitor e, em vez de ganhar, perder votos.
Embora não disponha de números, a Associação Brasileira de Telemarketing (ABT) estima que o uso do telefone nesta campanha supere tudo que já se viu no setor. O microempresário Ercílio Salvador Areias, que importa e monta plataformas capazes de disparar até sete mil telemensagens por hora, aposta na mesma direção: ele espera dobrar seu faturamento nos próximos meses.
Disparar mensagens gravadas, informar sobre eventos de campanhas e realizar pesquisas são os usos mais comuns do telemarketing. Mas também é frequente a sua utilização para atacar os adversários, segundo consultores políticos e empresários do setor. ''É antiético, mas funciona. Para espalhar boato é uma maravilha, porque boato em política vira verdade'', afirma o publicitário Elysio Pires, que trabalhou na campanha presidencial de Anthony Garotinho (PMDB) e hoje presta consultoria ao candidato à prefeitura de Niterói, Moreira Franco (PMDB-RJ).
O consultor político Hayle Gadelha, que já assessorou campanhas da ex-ministra Benedita da Silva e de Garotinho confirma essa vocação. Ele conta que nas eleições municipais de 2000, um candidato usou o telefone para espalhar que Cesar Maia, que acabou vencendo o pleito, iria cobrar pedágio na Linha Vermelha, uma das principais vias de acesso ao centro do Rio.
''Hoje é possível atingir 89% do eleitorado por telefone'', diz Fernando Lacerda, especialista no uso do telefone em campanhas. ''O telefone acoplado ao computador pode oferecer ao eleitor o que ele mais espera do político: respeito e atenção.''
Para não irritar o eleitor, ele orienta seus clientes a jamais ligarem para celulares. Por outro lado admite certas ''artimanhas'' para fazer campanha antes do tempo permitido. Sem infringir a legislação, alguns de seus clientes já estariam com call center desde janeiro.
Pires indica o telemarketing para candidatos que tenham um eleitorado bem segmentado, com uma localização geográfica ou um segmento profissional definido. ''Se não houver clareza do segmento que se quer atingir pode ser um tiro pela culatra.'' Gadelha recomenda o marketing por telefone nas grandes e médias cidades: ''Nas pequenas, o que funciona é o corpo-a-corpo.''
O gerente de tecnologia de informação Guilherme Chapiewski, da Internáutica, que presta serviços para diversos candidatos e prefeituras, diz que as reações são imprevisíveis. ''Há pouco tivemos o caso de uma atendente que ficou meia hora com uma eleitora, ouvindo toda a vida dela'', conta.
Nem todo mundo gosta. O publicitário Marcos Brenha recebeu recentemente uma ligação da Prefeitura de Niterói, onde ele mora e o prefeito é candidato à reeleição, propagando um serviço de saúde que só começa a funcionar no final do ano. ''É um absurdo fazerem marketing do prefeito, com grana minha, de uma coisa que nem existe'', reclama.

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