Patrícia Zanin
De Telêmaco Borba
As investigações da CPI do Narcotráfico realimentam as expectativas da Polícia, do Ministério Público e da Justiça de Telêmaco Borba (128 km ao norte de Ponta Grossa), que estão à caça de grandes traficantes. Segundo levantamento da Promotoria e da Justiça, cerca de 40 pessoas acusadas de tráfico de drogas foram presas desde o início do ano. Quinze permanecem detidas na cadeia de Telêmaco. As outras, consideradas usuárias, pagaram fianças e foram liberadas.
‘‘Qual é o pescador que não quer pegar um peixe grande?’’, compara o delegado-chefe da Telêmaco, Ary Nunes Pereira. Ele diz que, até agora, as prisões efetuadas são de ‘‘pés-de-chinelo’’. ‘‘São pessoas simples, que vendiam poucas quantidades’’, explica. A maior apreensão de maconha neste ano, por exemplo, foi de 505 gramas, além de 151 pedras de crack. ‘‘São os chamados vaporzinhos ou aviõezinhos’’, confirma a promotora Cyntia Maria de Almeida Pierri.
A promotora afirma, porém, que a meta é conseguir pegar o ‘‘primeiro escalão’’. ‘‘Até agora não conseguimos porque quem tem dinheiro geralmente paga para alguém sujar a mão’’, emenda Cyntia Maria.
O advogado Ruy Luiz Quintiliano, procurador jurídico da Câmara de Telêmaco e presidente do diretório do PFL, foi condenado pela Justiça local por tráfico de cocaína em 95, mas não cumpriu pena de prisão. A sentença foi anulada pelo Tribunal de Alçada do Paraná. O Ministério Público recorreu, o processo voltou para Telêmaco e o advogado foi absolvido. Novo recurso do Ministério Público fez o Tribunal de Alçada condenar o advogado, que recorreu da sentença no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O STJ anulou a sentença e o caso voltou para o Tribunal de Alçada. ‘‘Nunca fiz tráfico’’, defende-se o advogado. (leia texto abaixo).
A promotora e a juíza Luciani Regina Martins de Paula, que condenou Quintiliano em 95, afirmam ainda já ter encontrado indícios de que o município seja um centro de desmanche de veículos. O juiz aposentado Manoel Teolindo Amaral Costa está sendo processado por receptação de carros roubados.
‘‘Existe facilidade porque Telêmaco fica no meio do nada, entre Curitiba e Londrina. Além disso, encontramos carros suspeitos, com placas frias rodando, além de casos de dois veículos com a mesma placa’’, explica a promotora. Ela diz que alguns carros chegaram a ser apreendidos, mas o trabalho é ‘‘muito bem feito’’. ‘‘No cadastro do Detran, as placas dos chamados veículos dublês realmente existem. O problema é sério, mas falta efetivo policial para investigar’’.
O delegado concorda. A Polícia Civil tem seis investigadores, um escrivão e apenas dois veículos. A Militar tem dois carros. ‘‘Isso é muito pouco para uma população de 80 mil habitantes’’, explica a juíza. Ela acredita, porém, que apesar do pouco efetivo, a repressão ao tráfico está trazendo um resgate da confiança da população na Justiça. ‘‘Melhorou muito e já está mais difícil comprar a droga’’, garante.
A juíza e a promotora afirmam ainda que o índice de criminalidade também diminuiu. ‘‘A repressão interfere na realidade de todo mundo’’. O trabalho delas pode ajudar ainda a reduzir o consumo de drogas pelos adolescentes. Segundo Luciani e Cyntia, o uso de drogas nas escolas é muito alto. Chegaria a 80%, segundo estatísticas extra-oficiais.Cerca de 40 acusados de tráfico foram presos na cidade desde janeiro e agora investigação parte para desmanche de carros
Josoé de CarvalhoDESAFIODelegado Ary: ‘‘Qual é o pescador que não quer pegar um peixe grande?’’Josoé de CarvalhoANÁLISEPromotora Cyntia: ‘‘Quem tem dinheiro geralmente paga para alguém’’

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