TCs são ineficientes, diz estudioso
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terça-feira, 05 de setembro de 2000
Valmir Denardin De Curitiba 
Os tribunais de contas (TCs) brasileiros, da forma como estão constituídos, são ineficazes em sua função de fiscalizar os gastos do dinheiro público pelas autoridades e só favorecem o empreguismo e o nepotismo. A opinião é do cientista político paulista Fernando Abrucio, um dos principais estudiosos do tema no País. Durante 13 anos de 1982 a 1995 ele se debruçou sobre as estruturas públicas nos Estados, entre elas os TCs, para a elaboração do livro Os Barões da Federação.
Os tribunais de Contas têm um vício de origem que inviabiliza seu funcionamento como controladores dos gastos dos governantes: são os próprios governantes que nomeiam os conselheiros. É a vítima escolhendo seu algoz, compara Abrucio, de 31 anos, professor de Ciências Políticas da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo.
Uma reportagem publicada pela Folha ontem revela que o Tribunal de Contas do Paraná se transformou em um reduto para o emprego de parentes de conselheiros. O levantamento mostra que, nos últimos 12 anos, pelo menos 18 parentes em primeiro grau de conselheiros ou ex-conselheiros foram empregados no órgão apenas em dois cargos efetivos (aos quais o acesso só é permitido por meio de concurso): consultor técnico e consultor jurídico.
Ontem, a Folha apurou outros dois casos: Lysete Pohl (consultora técnica) é sobrinha do ex-conselheiro João Féder, e Agileu Carlos Bittencourt, que ocupa o mesmo cargo, é cunhado do conselheiro Nestor Baptista.
A alegação do presidente do TC, Quiélse Crisóstomo da Silva, é de que todos foram aprovados em concurso e o fato de serem parentes de conselheiros é apenas coincidência. Quiélse tem cinco parentes empregados no órgão: seus filhos Cleiton Kielse Bordini Crisóstomo (deputado estadual pelo PFL) e Fábio Bordini Crisóstomo, e sua sobrinha Claudiane Crisóstomo Pasquali (os três consultores técnicos), além do irmão Chrizanto Crisóstomo (assessor de gabinete de auditoria), e de outra sobrinha, Cristiane Pienaro Crisóstomo (revisora assistente). O cargo de assessor é de comissão (quando a autoridade tem o direito de nomear quem quiser, sem a necessidade de concurso).
Na avaliação do pesquisador paulista, o nepotismo verificado na maioria dos tribunais de Contas do País é decorrente da condição de serem órgãos políticos e não técnicos. No Paraná, a Constituição Estadual determina que dois terços dos conselheiros são escolhidos pela Assembléia Legislativa e um terço pelo governador.
Dessa situação, segundo o pesquisador, decorre a ineficácia dos TCs como órgãos fiscalizadores. O Tribunal de Contas da União nunca reprovou as contas de um presidente, nem do Collor depois do impeachment, observa. No Paraná, o Belinati (Antonio Belinati PFL, prefeito cassado de Londrina) não caiu na malha fina do TC, apesar do escabroso e óbvio desvio de recursos públicos, compara Abrucio.
Segundo ele, os tribunais são extremamente perdulários (gastadores) e pouco eficazes. O que eles fazem bem é controlar os municípios de oposição aos governadores, afirma. Por isso, na opinão do professor, o Executivo e o Legislativo fecham os olhos para não controlar os TCs. O maior prejudicado é o cidadão.
Diante dessa situação, Abrucio defende a reformulação completa ou até o fechamento dos Tribunais de Contas. Ele sugere que esses órgãos sejam transformados em auditorias independentes, cujos cargos sejam ocupados por técnicos de carreira concursados e não por indicação política. Essas mudanças podem ser feitas pelos Estados, por meio de emendas à Constituição Estadual, ou pelas prefeituras, por mudanças na lei orgânica.
De acordo com pesquisador, esse modelo é adotado com sucesso em países como Estados Unidos e Alemanha. Da forma que está, não pode continuar, diz Abrucio. Atualmente, junto com outros estudiosos, ele se dedica à preparação de um livro sobre todas as formas de se combater a corrupção no Brasil.


