O esquema de corrupção na prefeitura de Maringá tem novas revelações a cada dia. A tentativa de tirar o ex-prefeito Jairo Gianoto (sem partido) do foco principal do desvio de dinheiro perdeu sustentação com um documento do Tribunal de Contas anexado à auditoria feita pelo órgão. Técnicos do TC são categóricos e dizem no documento que Gianoto ‘‘tinha o dever de acompanhar, proteger e resguardar o patrimônio público de danos e dilapidações. Contrariamente ao cumprimento desse dever, há notícias de que em alguns cheques, ele aparece favorecido, donde se infere que a sua participação não foi somente omissiva, mas que concorreu ativamente para a improbidade administrativa’’.
As evidências indicam para uma ação conjunta do ex-prefeito de Maringá e do ex-secretário da Fazenda Luis Antônio Paolicchi no esquema que desviou R$ 54 milhões dos cofres públicos. Esse é o valor apurado oficialmente até agora, mas há informações de que o rombo pode chegar a R$ 100 milhões. O aprofundamento nas investigações, a prisão de Paolicchi e o envolvimento de Gianoto, fizeram surgir confrontos entre o ex-prefeito e o ex-secretário.
Gianoto diz que o responsável é Paolicchi, que devolve a acusação colocando o ex-prefeito no centro de todo o esquema. E nesse conflito também começam a aparecer novos desdobramentos no caso. Gianoto afirma que a indicação de Paolicchi para a secretaria de Fazenda foi do conselheiro do Tribunal de Contas do Paraná Artagão de Mattos Leão e do coordenador da Fundação Escola de Administração Pública do TC, Duílio Bento. O conselheiro rebate e promete tomar providências contra Gianoto, embora admita que numa solenidade em Maringá tenha participado, com outras pessoas, de uma conversa na qual foram discutidas indicações para o secretariado de Gianoto.
Aproveitando as novas informações sobre a corrupção, o Ministério Público Federal passa a investigar os beneficiários do dinheiro desviado, tendo como base agora os R$ 54 milhões apurados como o valor oficial do rombo. Antes, o MPF trabalhava com a cifra de R$ 2,6 milhões, quantia que motivou a abertura do inquérito contra Paolicchi. Na prefeitura, auditoria detecta que a administração anterior deixou R$ 75 milhões em impostos não cobrados. Em média, alguns contribuintes pagavam apenas 10% do valor dos débitos, como em casos de mansões que eram cadastradas como barracões para baixar o valor do imposto lançado. O desleixo apontado pelo atual secretário da Fazenda, Enio Verri, na forma como Paolicchi gerenciava a cobrança de tributos, não foi o mesmo no esquema de desvio de dinheiro apurado até o momento.
O ex-prefeito Jairo Gianoto (sem partido) teve participação decisiva no esquema de corrupção. Gianoto negou que tivesse conhecimento dos desvios, que podem chegar a R$ 100 milhões, e transferiu a culpa para o ex-secretário de Fazenda Luis Antônio Paolicchi. Auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE), à qual a Folha teve acesso, contesta a versão apresentada por Gianoto na sexta-feira passada quando falou sobre o escândalo depois de cinco meses de silêncio. Além disso, o Ministério Público (MP) descobriu cheques da Prefeitura de Maringá depositados na conta particular de Gianoto. Eles somam R$ 549 mil.
A auditoria do tribunal concluiu que foram desviados cerca de R$ 54 milhões entre 1997 a outubro do ano passado, quando Gianoto pediu afastamento do cargo. O levantamento do TC foi anexado ao processo que tramita na Justiça Federal contra Paolicchi, o seu sucessor Jorge Sossai e os servidores Waldemir Ronaldo Corrêa e Rosimeire Castelhano Barbosa. A liberdade de atuação dos integrantes da secretaria de Fazenda teria sido um dos fatores que contribuíram para o sucesso do esquema.
‘‘Estes funcionários (Paolicchi, Rosemeire e Sossai) tinham plena liberdade para assinar cheques e emitir pagamentos em nome da prefeitura. Em princípio, sem qualquer controle superior’’, atestaram os técnicos do TC. De acordo com a auditoria, um cheque do município que passava pelo esquema não era emitido nominalmente a um fornecedor, como seria feito numa transação normal. Nesse caso, o beneficiário nominal do cheque era a própria prefeitura, mas por endosso de Paolicchi, Rosemeire e Sossai, ele tornava-se ao portador.
Para encobrir o dinheiro desviado, a secretaria informava que credores haviam sido pagos por serviços prestados ao município. A auditoria do TCE identificou que o esquema usava o nome de empresas públicas estaduais, como Copel, Banestado (que ainda não havia sido privatizado na época dos desvios) e a Emater. Só para a Copel foram registrados pagamentos fictícios que atingem R$ 19,8 milhões.
Ao Banestado, a contabilidade da prefeitura informava ter emitido R$ 4,1 milhões. Ao todo são 29 empresas públicas e privadas que tiveram os nomes relacionados. O valor total chega a R$ 46,8 milhões. Corrigido, o rombo atual é de R$ 54 milhões. Fontes da Folha que participam da investigação sustentam que o desfalque em Maringá pode chegar a R$ 100 milhões.

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