Ex-delegado de Polícia nos anos 70, secretário avisa que fará mudanças e não teme possíveis opositores dentro da corporação
José SuassunaFui um delegado severo, mas não há nada que reprove minha conduta policial. Podem revirar tudo o que quiseremPara o novo secretário de Segurança Pública do Paraná, José Tavares da Silva Neto, 51 anos, as denúncias de envolvimento de delegados e investigadores no narcotráfico são ‘‘um tiro no peito’’ da Polícia Civil. Ele assumiu o cargo no lugar de Cândido Martins de Oliveira, acusado de conivência com delegados suspeitos de participar do crime organizado.
O esquema para sanear a Polícia Civil tem duas linhas. A primeira é o afastamento de delegados e policiais acusados por desvio de conduta dos postos de decisão. A segunda, porém não menos importante para Tavares, é o aumento da capacidade de investimentos na segurança.
Tavares conhece bem os problemas de segurança no Estado. Atuou como delegado de carreira entre 1969 e 77, em várias regiões do Estado. Também foi deputado federal por dois mandatos e deputado estadual três vezes, entre 79 e 99, sempre tratando de questões ligadas à segurança. Conhecido como delegado severo, promete rigidez na direção das duas polícias. Como parlamentar, já na década de 70, foi uma das testemunhas da CPI do crescimento da violência urbana, no Senado Federal.
O secretário montará uma comissão para mudar o regulamento da Polícia Militar. Ele defende modificações no conselho e corregedoria, além da criação Ouvidoria para fiscalizar a ação policial. As alterações começaram sexta-feira, quando Tavares anunciou os novos chefes na Polícia Civil. O delegado-geral, Leonyl Ribeiro, 60 anos, corregedor-geral, Paulo Brenny, 54 anos, e o ouvidor da polícia, Almir Chagas Vilela são definidos como ‘‘inatacáveis’’ pelo secretário.

Folha do Paraná – Além das deficiências estruturais para o combate à criminalidade, que são históricas, policiais civis são alvos de suspeição pública por envolvimento direto no crime organizado. Como recuperar a imagem da polícia nesse momento?
José Tavares – Reconheço que é uma missão difícil, mas a assumo consciente das dificuldade e desafios. Sei das expectativas que minha chegada à Secretaria de Segurança está gerando. Trago comigo uma determinação. Acredito sinceramente que não haja nenhum problema que resista ao trabalho, aos bons propósitos e a uma boa conversa.
FP – Como será sua atuação na apuração das denúncias de envolvimento de policiais civis com o narcotráfico?
Tavares – Eu faço parte da comissão montada pelo governador Jaime Lerner (PFL) para averiguar todas as responsabilidades de funcionários públicos. Além disso, aqui na Secretaria vou atuar de forma ética, respeitadora, com determinação, contando com os poderes constituídos do Estado para corresponder às expectativas do povo do Paraná.
FP – É possível recuperar a imagem da polícia a curto prazo?
Tavares – Vamos superar, com certeza. A Polícia Civil está vivendo um momento dos mais difíceis de sua história. Porém, ela é uma instituição do povo do Paraná. Uma instituição secular. Cheia de valorosos servidores. Mas, com essas denúncias, ela foi atingida no peito, quase que com um tiro de morte. Vamos ter essa desafiadora tarefa de resgatar a imagem da instituição e tenho certeza que isso é possível.
FP – O Paraná não é o único Estado com problemas internos na Polícia Civil. O mesmo acontece no Rio de Janeiro, onde há vários grupos disputando poder interno na Corporação. Eles chegariam até mesmo a fazer ameaças veladas ao secretário de Segurança, caso houvesse intenção de modificar a atual estrutura. Isso também acontece no Paraná?
Tavares - Se acontece, não me preocupa. Pretendo contar com os bons policiais e atuar com rigor em todas as prerrogativas que minha função possui. Meu objetivo é colaborar para que o povo do Paraná tenha uma segurança de qualidade, não manter esse ou aquele grupo com maior ou menor poder.
FP – Os novos corregedor-geral e delegado-geral têm essa mesma percepção dos problemas?
Tavares – Sem dúvida. O que eu quero e vou exigir de todos é maior agilidade possível às providências da lei. O delegado Paulo Brenny, corregedor-geral, terá condições de dar mais poder aos demais corregedores para aprofundar investigações sem burocracia, e a partir de agora, além dos processos administrativos, poderá apresentar denúncias criminais.
FP – Mas a divisão na polícia existe. Tanto que alguns delegados foram as principais testemunhas da CPI do Narcotráfico nas denúncias contra outros delegados e policiais. O senhor não teme que essa ‘‘estrutura interna’’, ao se sentir contrariada pelas novas medidas, possa recorrer ao seu passado como delegado de carreira para fazer-lhe acusações?
Tavares – Não há nada que reprove minha conduta policial. Podem revirar tudo o que quiserem. Como eu era severo no combate à criminalidade, respondi a alguns inquéritos por abuso de autoridade, mas todos foram arquivados. Eu sou um democrata por natureza. Mas assim como combati o crime com dureza, farei o mesmo na Secretaria de Segurança, sem me preocupar se esse ou aquele funcionário público terá seus interesses pessoais contrariados.
FP – As pressões de grupos opositores dentro da Polícia Civil não atrapalhariam a proposta de integração dos organismos de segurança?
Tavares – Eu nunca estive tão tranquilo ao assumir uma função pública como agora. Isso demonstra que você tem que pegar as pessoas certas e colocá-las de vez em quando nos lugares certos. Sei que com determinação, zelo, trabalho, aplicação correta da lei, relacionamento adequado com as instituições, haveremos de dar continuidade ao trabalho porque essa é a determinação do governador e a exigência do povo do Paraná. Repito o que disse no meu discurso de posse: a seguranca que quero para minha família é a segurança que vamos buscar para a sociedade paranaense.
FP – O município de Londrina possui um dos maiores déficits de policiais civis no Estado, essa reestruturação proposta pelo senhor também levará em conta as particularidades regionais?
Tavares – Pela sua importância política, econômica e social, ela está inserida nesse contexto. Londrina é a primeira cidade do interior e vai receber a atenção possível, como sempre recebeu. Enquanto secretário de Justiça, ainda na minha primeira gestão, construímos uma prisão modelo para desativar o cadeião que nos envergonhava. Agora estamos mantendo a qualidade da execução penal da PEL (Penitenciária Estadual de Londrina) e tínhamos um plano para recuperar a colônia penal agrícola de Tamarana, transformando-a na primeira prisão feminina do interior do Paraná. Como estou vindo para a Secretaria de Segurança os problemas prisionais agora terão outro enfoque, mas continuam chamando a minha atenção.
FP – Além da apuração de possível envolvimento de policiais no crime organizado, a instituição Polícia Civil passará por mudanças estruturais?
Tavares – A Polícia Civil vai passar por uma mudança profunda nos próximos meses, com reflexos em todo o Estado. Serão duas frentes de trabalho. Junto com a reestruturação institucional, vou cuidar também do dia a dia. Eu tenho um estilo de atuar muito próximo das decisões para ter certeza que elas são as mais acertadas e oportunas. A gente sabe que tudo é muito difícil no poder Público e depende da vontade das pessoas.
FP – Como será a distribuição dos novos contratados da Polícia Civil no Paraná?
Tavares – Eles serão divididos nas várias regiões do Estado, de acordo com as necessidades. Curitiba ficará com o maior número de novos contratados, porque é onde os problemas continuam graves e crescentes. É na capital que existe o maior déficit funcional da Polícia Civil atualmente. O que é compreensível porque aqui a população cresce mais rápido que em outras regiões.
FP – No caso da Polícia Civil, os organismos mínimos de atuação dependem de muitos investimentos. Por exemplo, 270 dos 399 municípios do Estado não têm um policial civil concursado e uma boa parte das delegacias do interior foram construídas no governo Moisés Lupion, há quase 50 anos...
Tavares – A Polícia Civil vém de uma história longa de poucos investimentos e quase nenhuma atenção. Vamos reexaminar e definir novas prioridades para a Polícia Civil. O governador Lerner se prontificou a colocar à disposição da Segurança todos os recursos possíveis. Estou indo atrás deles agora. Na medida em que tivermos instrumentos indispensáveis para pôr em prática o nosso plano, vamos fazer tudo o que está previsto.
FP – Para fazer isso o senhor vai esfrentar problemas dentro do próprio governo, em especial na área financeira, como já acontece com outras Secretarias. O senhor está preparado para os embates internos?
Tavares – Quando tenho certeza que algo é bom para o povo eu não desisto nunca. Vou brigar com as outras áreas de governo, não para exigir verbas, mas para mostrar a importância e a necessidade da adoção dessas medidas. Assim, esses setores também serão conscientizados das necessidades. Além disso vamos racionalizar gastos. O Poder Público gasta mal em alguns setores.
FP – Qual o déficit de policiais no Paraná atualmente? Diretores do Sinclapol dizem que deveria existir sete mil policiais civis no Estado e hoje temos apenas 4 mil na ativa.
Tavares – Em termos de PM, o déficit é de cerca de dois mil homens. Hoje temos 18 mil policiais. Pela primeira vez na história, Londrina, para citar o exemplo anterior, que sempre foi muito exigente em segurança, tem um batalhão com o maior efetivo proporcional do Estado, são mais de 600 homens. Já na Polícia Civil a defasagem é maior porque ela foi ficando para trás no decorrer do tempo.
FP – A culpa dessas perdas históricas na Polícia Civil é daqueles que tomam decisões políticas?
Tavares – Não desse governo, que colocou quatro mil homens na PM e 600 na Polícia Civil nos últimos anos. Ao longo dos governos anteriores que ela foi ficando para trás. Temos que admitir mais esses 900 policiais agora, distribui-los e continuar procurando formas de reduzir esse déficit de delegados e policiais no Estado. O importante é que, na medida que admitirmos os 900, estaremos bem posicionados. Sabemos que a Polícia Civil precisa de mais homens, mas se conseguirmos colocar esses em serviço teremos dado um grande passo.
FP – Sempre que há uma grande crise em um dos poderes ou órgão público, volta à discussão a possibilidade de controle externo, mas na polícia há uma resistência muito grande. Maior até que na Justiça. Qual a sua opinião sobre o controle externo da Polícia Civil?
Tavares – Não vejo porque não haver um controle externo da Polícia. Esse assunto parece ser um tabu, mas vejo muitos policiais defendendo essa tese. Vamos desenvolver estudos nesse sentido. A legislação que regula as atividades da Polícia Civil está passando da hora de ser revista. Um dos exemplos é em relação à Corregedoria, outra é o Conselho da Polícia Civil. O governador Lerner defendeu a criação da Ouvidoria Geral de Polícia. Por que não uma instituição como esta para servir como instrumento de fiscalização da polícia? Inclusive, com a presença de pessoas de fora da Corporação.
FP – Então a forma de se fazer um controle externo da Polícia Civil seria com uma Ouvidoria e não por eleição de delegados, como defendem alguns Conselhos Comunitários de Segurança?
Tavares – A primeira é uma boa proposta, já que a função desse órgão é receber denúncias de desvio de conduta. O ouvidor, delegado Almir Chagas Vilela, estará à disposição da população pelo Disk Denúncia 200-1717, para receber informações sobre desvios policiais. E os quadros da Ouvidoria poderiam incluir representantes de entidades civis organizadas. Quanto às eleições, preciso de mais detalhes para me posicionar.

FP – Quais as principais medidas a serem adotadas nos próximos dias para a melhoria da prestação de serviços da polícia do Paraná?
Tavares – Temos que agilizar a admissão de mais 900 policiais civis. Colocar em ação até segunda-feira (hoje) o programa de moto-patrulha. Agilizar a aquisição de novos veículos policiais. Iniciar os procedimentos para abertura de um novo concurso para delegados, que deverá abrir pelo menos mais 40 vagas em todo o Estado. Vamos tratar, com a Secretaria de Estado de Obras Públicas, das reformas e ampliações das delegacias de 57 municípios paranaenses. Criar a curto prazo um grupo de trabalho para analisar e propor mudanças na legislação que regula a Polícia Civil como um todo.
FP – Qual sua opinião sobre a unificação das duas polícias?
Tavares – A integração é algo muito positivo. Não podemos esquecer que há um artigo na Constituição Federal impedindo a total unificação. De qualquer maneira, o governador defende a integração cada vez maior entre as duas polícias, em especial nas ações conjuntas contínuas. O cidadão que paga impostos quer segurança de verdade, para ele, não interessa se existem duas polícias.
FP – O senhor disse que a Polícia Civil passará por profundas mudanças, inclusive com a reformulação de alguns de seus órgãos internos, isso inclui trocas de nomes em cargos de segundo escalão?
Tavares – Essas mudanças são naturais e devem acontecer. Mas não há motivos para terrorismo. Vamos averiguar todas as informações com muita calma e se chegar à conclusão que alguém não serve para determinada função, ele será substituído. Se, além disso, encontrarmos indícios de que pode ter havido desvio de função, esse funcionário irá responder a inquérito administrativo. Para não correr risco de cometer injustiças, ainda é muito cedo para falar em nomes.
FP – Também haverá mudanças na direção da Polícia Militar?
Tavares – A princípio não tenho intenção de ‘‘mexer’’ na Polícia Militar. Essa instituição vem cumprindo com sua responsabilidade a contento e, por enquanto, não há previsão para nenhuma mudança.

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