Brasília - A oficialização de uma nova tarifa de 25% aplicada pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros abriu uma crise comercial e diplomática que foi rapidamente absorvida pela disputa política nacional. O imposto extra entrará em vigor a partir do dia 22 de julho. O tarifaço afeta cerca de 18% a 20% das exportações do Brasil para os americanos, podendo gerar um prejuízo que varia entre US$ 7,4 bilhões e US$ 11 bilhões no comércio bilateral.

O governo norte-americano listou justificativas inusitadas e de forte teor político para taxar o Brasil. O documento do USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) cita nominalmente o sistema de pagamentos Pix, as investigações de corrupção, as ações do Supremo Tribunal Federal (STF) contra as big techs americanas, as tarifas sobre o etanol e até o desmatamento para dar sustentação à canetada.

RINGUE ELEITORAL

A imposição das taxas acendeu os holofotes sobre a disputa política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), transformando as barreiras alfandegárias em palanque político para as eleições. Diferente de outros embates em que adotou uma postura estritamente técnica, desta vez a reação do governo federal e de seus aliados mirou diretamente a conduta política dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República emitiu uma dura nota na qual responsabiliza diretamente a atuação internacional da família Bolsonaro pelas barreiras tarifárias impostas por Donald Trump.

"Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências", diz trecho da nota oficial da Secom do Planalto, que classificou os adversários políticos como "falsos patriotas".

A retórica governista ganhou as redes com o apelido jocoso de "TariFlávio". Conforme noticiou a Folha de S.Paulo, deputados influentes do PT partiram para o ataque direto, acusando os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro de agirem nos bastidores do governo dos EUA para prejudicar a economia nacional de olho em ganhos eleitorais para 2026.

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) declarou publicamente que "o tarifaço é obra dos Bolsonaros, que agiram como verdadeiros traidores da pátria desde o início".

Na mesma linha, o deputado Alencar Santana (PT-SP) associou as recentes agendas de Flávio com o presidente americano ao resultado alfandegário negativo: "Foi só ele se encontrar com o Trump que o tarifaço voltou para prejudicar o Brasil. Traidor da pátria não merece respeito!", publicou o parlamentar.

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REAÇÃO DE FLÁVIO

Do lado da oposição, o senador Flávio Bolsonaro tentou usar sua proximidade com Donald Trump para mitigar as críticas, mas acabou em uma encruzilhada. Conforme declarou o senador em entrevista reproduzida pelo G1, sua recente viagem aos Estados Unidos teve o objetivo estrito de tentar "sensibilizar" o presidente americano a não penalizar o país.

Flávio tentou transferir a culpa para o Planalto, argumentando que as tarifas são fruto da postura "antiamericana" e das "provocações" de Lula contra o republicano. No entanto, sua tentativa de adiar o anúncio para depois do período eleitoral no Brasil — sob a justificativa de que a medida beneficiaria o discurso nacionalista do PT — acabou vazando para os bastidores, alimentando o debate público.

GUERRA DE PALANQUE


A polarização direta entre o Palácio do Planalto e o clã Bolsonaro abriu espaço para que outros pré-candidatos à Presidência se manifestassem, criticando o que classificam como o uso eleitoreiro de um problema econômico vital. Segundo compilou o portal G1 e o jornal Estadão, nomes da chamada "terceira via" e da direita independente tentam se descolar do embate direto buscando pontuar junto ao eleitorado prejudicado.

O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) criticou severamente a postura de ambos os lados e alertou para o risco de quebra de setores produtivos da economia. "O que está em jogo por trás do tarifaço dos EUA é que setores inteiros podem quebrar. Não é conversa fiada. É a conta mesmo que não fecha, com 25% a mais de tarifa, que pode chegar a 37,5% somada a outras sobretaxas em análise, indústria, agro e serviços digitais brasileiros perdem competitividade da noite pro dia. Fábrica fechada é gente na rua. Produtor endividado é cidade inteira sufocada", escreveu em sua rede social. E completou que enquanto Lula "não tem capacidade de dialogar", Flávio "está preocupado com as eleições" — sem citar esse último nominalmente.

Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais concentrou suas críticas no Planalto. Conforme registrou o Estadão, Zema afirmou que o tarifaço deveria ser colocado integralmente "na conta do Lula, da Janja e do STF". Para ele, as escolhas ideológicas e a condução diplomática desastrosa do atual governo federal tornaram o Brasil um alvo fácil de retaliações comerciais que penalizam quem trabalha e produz.


O pré-candidato do partido Missão Renan Santos subiu o tom contra os dois polos do debate. Em depoimento publicado pelo G1, ele classificou a briga como uma "situação ridícula" em que "o interesse brasileiro fica jogado no lixo". Ele apontou que, enquanto o governo parece se satisfazer politicamente com a taxação para alimentar o nacionalismo, os Bolsonaros colocam seus interesses eleitorais acima do país. Renan propõe colocar o mercado de terras raras na mesa de negociação com Washington para forçar os americanos a recuarem.


IMPACTO NAS PESQUISAS

Se a intenção da oposição era culpar a política externa de Lula pelas tarifas, a opinião pública parece ter seguido na direção oposta. Conforme revelou a pesquisa Genial/Quaest, a maioria dos eleitores responsabiliza o próprio senador do PL pelo tarifaço.

Para 51% dos entrevistados, Flávio Bolsonaro é culpado pelas tarifas americanas, aceitando a narrativa governista de que as articulações da oposição nos EUA acabaram validando as pressões contra a economia nacional. Apenas 30% concordam com o senador.

De acordo com os dados da Quaest, o tarifaço acabou aproximando mais eleitores de Lula do que da oposição. Para 42% dos entrevistados, o episódio aumentou a vontade de votar no atual presidente, enquanto apenas 27% disseram que a medida aumentou a intenção de voto em Flávio Bolsonaro.

O levantamento da Quaest também apontou que 58% dos eleitores acreditam que Flávio não tem força política real para convencer Donald Trump a rever ou cancelar as taxas aplicadas.

Ao fim e ao cabo, o tarifaço do governo Trump que pretendia pressionar o Brasil acabou se convertendo, ao menos temporariamente, em uma valiosa peça de propaganda para o discurso de defesa da soberania nacional do governo Lula, enquanto deixou a oposição bolsonarista em uma incômoda defensiva diante de seu próprio eleitorado.


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