TAL PAI... - De Richa a Richa: governos apostam tudo em Curitiba
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Na rotina que se tornou comum no Paraná, o governador anunciando grandes empreendimentos no eixo Curitiba-Região Metropolitana-Ponta Grossa, Beto Richa admitiu que o Interior não tem infraestrutura para competir e que ''Londrina foi abandonada pelos últimos governos'', conforme reportagem de Nelson Bortolin, de 10 de janeiro. Até por um aspecto genealógico, parece interessante rememorar que o marco divisório desses dois Paranás configurou-se na década de 1970. O prefeito de Londrina era José Richa (pai do atual governador). Na Capital, o Estado passou a sustentar a iniciativa municipal de construção da Cidade Industrial de Curitiba (CIC).
Londrina vinha recebendo mais indústrias do que Curitiba, expôs José Richa em fevereiro de 1975. ''Dez mil novos empregos em apenas dois anos de esforços. Isto quer dizer que dobramos o número de empregos, que era de 10 mil, sem contar o ICM e outros benefícios gerados pelas indústrias'', resumiu. E completou. ''A Cidade Industrial de Curitiba está sendo muito badalada. Ao que se informa, lá existem 27 indústrias. Ora, em Londrina o distrito já tem 60 implantadas em dois anos e a área é a mesma que a de Curitiba.''
Pelo depoimento de Cássio Taniguchi, um dos executivos da CIC, ''o desencadeamento, em 1973, do processo de industrialização de Curitiba foi um ato consciente e deliberado das administrações públicas em âmbito estadual e municipal''. Além de dotações financeiras e participação direta de órgãos da administração, o Governo do Estado teve de assumir a dívida acumulada por Curitiba, que contribuiu para fechar o Banco de Desenvolvimento Econômico do Paraná (Badep).
Declarações no livro ''Memória da Curitiba Urbana'' reafirmam a soberania de Curitiba ante o Interior. No caso da CIC, houve o reforço da prática por uma ''familiaridade'': o próprio prefeito, Jayme Lerner, idealizador do empreendimento, fora nomeado pelo governador e este, por sua vez, indicado pela ditadura. As capitais não elegiam prefeito.
''Quando assumi o governo do Paraná, em agosto de 1973, a Cidade Industrial de Curitiba já era quase uma realidade, idealizada pelo então prefeito Jayme Lerner e encampada com entusiasmo pelo meu antecessor, o professor Parigot de Souza'', relatou Emílio Gomes. ''A construção da CIC acabou sendo a grande obra do meu governo, já que com pouco tempo para administrar eu resolvi terminar as obras inacabadas de governos anteriores'', completou Gomes, que era deputado federal por Irati quando foi indicado governador.
As dotações do Estado, regulares até 1979, fim do governo Jayme Canet, cessaram ao assumir Ney Braga (ainda indicado pela ditadura) e a ''CIC entrou em colapso'', conforme a memória do engenheiro Luiz Groff, o gestor naquela época. Já com os governadores eleitos, José Richa e Alvaro Dias, sucessivamente, o Estado se limitou à renovação de empréstimos, repassados pelo Badep. Havendo a necessidade de ''harmonizações política, não era mais possível um tratamento preferencial a Curitiba''.


