Cérebro do crime organizado chegou a montar estrutura para lavar dinheiro entre Juiz de Fora e a capital mineira
HABILIDADEHiran Rodrigues, empresário de Juiz de Fora: ‘‘Ele passava a mão no telefone falava com políticos e resolvia os problemas’’Maurício D., o homem com muitas caras e nenhum rosto, deixou pelo menos uma pista clara de sua passagem recente pelo submundo das finanças. Há dois anos, com um de seus muitos nomes – desta vez Alfredo Roberto H. – ele tentou montar uma megaestrutura de lavagem de dinheiro entre as cidades de Belo Horizonte e Juiz de Fora. A história, recheada de lances obscuros, começou a chegar ao fim depois que ele sofreu um violento acidente de carro, sobre o qual pesa a suspeita de ter sido um atentado.
A montagem de esquemas de lavagem de dinheiro em Juiz de Fora é velha conhecida da CPI do Narcotráfico e da Polícia Federal. ‘‘Em Juiz de Fora gira muito dinheiro. Doleiros cariocas preferem estas praças porque grandes movimentos ainda geram poucas suspeitas’’, disse, em Campinas, o delegado federal Paulo Lacerda, responsável pelo desmanche de parte do esquema de PC Farias.
Os negócios de Alfredo Roberto H. na região começaram depois que ele aproximou-se do médico ortopedista, fazendeiro e empresário Hiran Rodrigues, amigo pessoal do governador Itamar Franco. Hiran diz que Alfredo Roberto H. mostrava uma capacidade rara para resolver problemas. ‘‘Ele passava a mão no telefone, falava com deputados, senadores e ministros e rapidamente os problemas estavam resolvidos’’, lembra.
A proposta que o homem de muitos nomes tinha para Hiran era tentadora. Os filhos do médico são proprietários de uma agência de turismo na cidade, a AZ Turismo. Alfredo Roberto H. propunha injetar dinheiro para transformá-la em uma empresa de táxi aéreo e de transporte de cargas aéreas. Com a implantação da Mercedes-Benz em Juiz de Fora ele pretendia garantir a sustentação econômica da empresa através do transporte de autopeças de Campinas para a nova fábrica.
‘‘Sua capacidade de fazer negócios era tão clara, que aceitamos o projeto’’, conta Hiran. Já neste tempo, ele mostrava uma particularidade várias vezes identificada neste homem de muitos nomes. Não se deixava fotografar, não assinava documentos e todas as suas transações eram feitas com dinheiro vivo ou cheques de terceiros. Foi assim que, em nome dos filhos de Hiran, ele iniciou o processo de abertura da AZ Táxi Aéreo e da AZ Cargas Aéreas.
Aí, novamente, sua capacidade de influência surpreendeu o médico mineiro. Três meses depois, Alfredo Roberto H. conseguiu, junto ao Departamento de Aviação Civil (DAC), a liberação de uma rota aérea entre Campinas-Belo Horizonte-Juiz de Fora-Rio de Janeiro para a AZ Turismo operar com transporte de cargas e passageiros.
Na mesma época, o homem de muitos nomes iniciou um processo junto à Infraero para reformar o aeroporto de Juiz de Fora. ‘‘Ele queria construir galpões e ofereceu US$ 600 mil para executarmos as reformas’’, lembra Maurício Campos, diretor do aeroporto da cidade. Campos reconhece que o aeroporto precisava de reformas para operar com a nova linha aérea e o terminal de cargas. E encaminhou a proposta formal da AZ Turismo para a direção da Infraero. ‘‘Esta proposta é confidencial e não posso revelar seu teor’’, afirma.
Mas o esquema que Alfredo Roberto H. pretendia implantar em Minas Gerais não parava aí. Enquanto a empresa aérea se estruturava, ele iniciou gestões para comprar três casas de câmbio em Belo Horizonte. O objetivo era claro. Lavagem de dinheiro. Segundo o informante não identificado que revelou as primeiras histórias que deram origem ao dossiê, foi neste momento que selaram o destino de Alfredo Roberto H. na região.
‘‘Perceberam sua capacidade de ação e cresceram o olho’’, afirmou ele. Nesta época, já início de 98, o homem de muitos nomes desembarcou no aeroporto de Juiz de Fora a bordo de um jatinho pintado com o logotipo da AZ Turismo. A cena foi presenciada por várias pessoas. Hiran afirma que este não passava de mais um de seus golpes. ‘‘Na verdade, era um avião fretado. Ele queria nos convencer a comprá-lo por US$ 600 mil’’, diz.
Ainda segundo o informante, Alfredo Roberto H. teria iniciado gestões junto à Embraer para comprar duas aeronaves em nome da AZ Turismo. Mas esta história não é confirmada pelo diretor financeiro da empresa, Antonio Luiz Pizarro Manso. ‘‘Não temos registros desta negociação’’, informou ele através de sua assessoria.
Os empreendimentos haviam chegado a este ponto quando o homem de vários nomes envolveu-se num acidente que até agora permanece obscuro. Ele saiu de Juiz de Fora em um Tempra verde alugado em nome da AZ Turismo. Quando chegava em Belo Horizonte, sofreu um acidente e foi levado para um pronto-socorro local.
Assim que recuperou os sentidos, ligou para Hiran, em Juiz de Fora, e pediu que fosse buscá-lo imediatamente. Horas depois, já estava deitado na mesa de cirurgia da clínica de Hiran e de seu filho, Hiran Rodrigues Júnior, também ortopedista, em Juiz de Fora. Hiran minimiza a extensão da fratura.
A causa do acidente permanece obscura. Segundo versão do próprio Alfredo Roberto H., na época, ele teria sofrido um atentado a tiros. Depois do acidente, por razões que não ficaram claras, Alfredo Roberto H. mudou seu comportamento. Desmontou na surdina as operações que havia iniciado e, em menos de uma semana, desapareceu da cidade. ‘‘Deixou um rombo de mais de R$ 200 mil em nome da AZ Turismo, que só agora acabei de pagar’’, afirma o médico.
Durante a fuga, conseguiu sacar na agência do Banco Bandeirantes de Belo Horizonte dinheiro depositado na agência do mesmo banco em Juiz de Fora. Informações que se encontram em poder da CPI do Narcotráfico falam em quantias milionárias. Mas Hiran desmente. O médico confirma a operação mas diz que Alfredo Roberto H. sacou ‘‘apenas R$ 12 mil’’.
O gerente da agência de Belo Horizonte na época, José Luiz Benetti, que hoje trabalha na diretoria do banco no Rio de Janeiro, diz que esta operação ‘‘nunca ocorreu’’. ‘‘Não é possível que alguém saque dinheiro de uma conta que não lhe pertence, ainda mais de um agência de outra cidade, sem portar uma procuração’’, garante.
Hiran também não sabe como ele conseguiu fazer os saque. ‘‘Era um homem muito esperto e não sei que artifício usou para conseguir isso’’, diz. Depois da fuga precipitada, Hiran diz que conseguiu rastreá-lo ainda em Goiânia, onde ele teria montado outra empresa de cargas e transportes aéreos. ‘‘De lá, voltou para o Rio de Janeiro e, pelo que fiquei sabendo, manteve também negócios em Recife’’, conclui.

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