Perante o juiz da 3ª Vara Criminal de Londrina, Juliano Nanuncio, o auditor Márcio de Albuquerque Lima, acusado pelo Ministério Público (MP) de ser o líder do suposto esquema de corrupção e sonegação fiscal da Receita Estadual de Londrina, negou, um a um, os 32 fatos criminosos de que é acusado no processo relativo à primeira fase da Operação Publicano. Em pouco menos de duas horas, ele falou, pela primeira ,vez sobre as acusações. Durante o período de investigações, preferiu manter o silêncio.
Delegado-chefe da Receita de Londrina entre janeiro de 2011, quando o governador Beto Richa (PSDB) assumiu o primeiro mandato, e junho de 2014, ele foi promovido a inspetor-geral de fiscalização da Receita do Paraná, segundo cargo mais importante do órgão fazendário, no qual permaneceu entre julho de 2014 até poucos dias antes de ser preso pela Publicano, em março de 2015.
Tanto ele quanto a esposa, a auditora Ana Paula Pelizari Marques de Lima, também interrogada ontem, admitiram "relações sociais" com o governador Beto Richa e sua família e com o empresário Luiz Abi Antoun, parente distante de Beto.
Porém, negaram as acusações feitas em acordo de colaboração premiada pelo principal delator do esquema, o auditor Luiz Antonio de Souza, segundo quem Abi seria, de fato, quem mandava na Receita e que Lima tinha "fidelidade canina" para com ele. No processo relativo à segunda fase da Publicano, Abi também é réu e acusado de supostamente ter incumbido Lima de providenciar recursos provenientes de propina para a campanha de reeleição de Beto. O governador e seu partido negam qualquer irregularidade.
Questionado pela promotora Leila Schimiti sobre quem o teria indicado para o cargo de inspetor-geral, disse que não acreditava na influência de Abi, conforme asseverou o delator, mas, sim, teria sido uma escolha da coordenação geral da Receita, em Curitiba.
Ao juiz, Ana Paula e Lima disseram ter patrimônio compatível com a renda mensal de dois auditores, cujos salários são de mais de R$ 20 mil. Ela afirmou que chega a R$ 3,5 milhões o patrimônio do casal. Ele disse que têm dois apartamentos, três veículos, imóvel no Rio de Janeiro, lancha e carro de corrida.
Como delegado-chefe em Londrina, Lima disse que uma vez recebeu a visita de um empresário "transtornado" com a fiscalização agressiva feita pela auditora Rosângela Semprebom, irmã de Souza e também delatora, e solicitou providências ao setor responsável. O empresário, neste caso, admitiu que pagou propina a Luiz Antonio de Souza. Mas, fora isso, afirmou jamais saber de casos de corrupção e muito menos de organização criminosa.
O mesmo declarou Ana Paula. "Eu desconheço essa organização, nunca participei, e não conheço ninguém que tenha participado. Não sei de onde tiraram isso."
A auditora, que teve função comissionada de apoio de gabinete, durante o período em que o marido foi delegado da Receita, disse acreditar que pode ter sido envolvida justamente por ser mulher de Lima e relatou certa pressão de agentes do Gaeco e MP. "Concluí que fui presa, fui usada justamente para meu marido fazer delação", declarou durante seu interrogatório, que duas horas e dez minutos.
Sobre outro fato de que é acusada (além dos mesmos 33 que o marido), de ocultação de documentos, afirmou que retirava do apartamento, dois dias antes de operação de busca e apreensão determinada pela Justiça, roupas e cobertores para doar ao Lar Anália Franco e não havia qualquer documento ou objeto que se relacionasse à Publicano.
O auditor Ademir de Andrade, acusado de ter exigido propina de R$ 120 mil de um empresário, também negou as acusações. Disse que a prova maior seria a multa efetivamente aplicada à empresa, de R$ 2 milhões. Na denúncia, a autuação teria ocorrido justamente em razão da recusa do empresário ao acordo de propina. Sobre a acusação de organização criminosa, também negou saber de sua existência.
Ao avaliar a audiência de ontem, a promotora Leila Schimiti disse que já "era esperada e natural" a negativa dos réus que não firmaram acordo de delação premiada. Sobre a pressão alegada por Ana Paula, Leila disse que é "uma opinião dela". "Desconheço qualquer situação ou conversa neste sentido de quem quer que seja."

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