Na avaliação de Giuseppe Cocco, o apego ao lulismo é um suicídio político e eleitoral. "Boulous e Manuela são marginais em termos de capacidade de representar uma saída. Quem vota no Lula não vota neles. São mais candidaturas simbólicas. É uma dinâmica suicida da esquerda, de querer se atrelar à falência, ao fracasso. O lulismo eu acho que acabou. Essa união [das esquerdas] teria uma chance se o Lula fosse candidato e tivesse um projeto, uma proposta, mas estamos ao meu ver num cenário onde ele não vai ser candidato e a candidatura é somente uma estratégia de defesa judiciária".

O professor aponta a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) como única representante da esquerda que seria capaz de vencer a eleição. "Do ponto de vista da renovação, a única que existe é ela, como uma esquerda moderada, com chance de quebrar esse impasse. Agora, a campanha criminosa feita pelo próprio PT em 2014, de destruição da sua figura, ainda está presente. A esquerda fica ao lado de alguém que tem problemas éticos e massacra alguém com uma história importante. Aceita o Ciro, que não tem nada de esquerda, e a Marina não", completou.

Enquanto isso, o ultraconservador Jair Bolsonaro (PSL-RJ), defensor dos "excessos" praticados durante a Ditadura Militar, de 1964 a 1985, e da proposta "arma para todos", segue percorrendo o Brasil, em pré-campanha, e ganhando adeptos. "A impressão que eu tenho é que o Bolsonaro cresce como voto de protesto diante da presença do Lula e dessa unificação da esquerda em torno de uma figura que é problemática. A saída do Lula eu vejo como uma possível redução do fenômeno de voto de protesto em Bolsonaro", analisou Cocco.

"Agora, é verdade que a gente está vivendo um sistema judiciário que, apesar da Lava Jato romper uma série de tabus, continua protegendo algumas figuras, como foi o caso do [Geraldo] Alckmin (PSDB). Foi salvo pela procuradoria e pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), mas não deixa de estar na Lava Jato. Ou seja, a direita também não está muito bem. Ninguém sabe direito o que vai acontecer. O quadro eleitoral está muito fragmentado e não dá para fazer previsões", acrescentou.

O estudioso Bruno Cava Rodrigues, mestre em filosofia do direito pela UERJ e autor do livro "A multidão foi ao deserto" (ed. Annablume, 2013) sobre as manifestações de Junho de 2013, lembra que não há vazio em política. Ele explica que o petismo foi bem-sucedido em converter a sua própria derrota em derrota da esquerda, enquanto ex-aliados do petismo, como Temer, Pezão ou Crivella, hoje estão no governo. "Em Junho de 2013 não havia MBL ou Vem para Rua nas mobilizações, mas já no ciclo seguinte, das manifestações anticorrupção de 2015, eles estavam lá. Suas alianças com o governismo temerista, no entanto, impedem que consigam incorporar as massas de indignados", diz.

O que sobra então, segundo Rodrigues, é uma revolta órfã e uma indignação "que se transforma em sentimento antipolítico e desejo de avacalhar o sistema como um todo". Entre o desânimo e o ódio, abre-se espaço para o florescimento de arranjos populistas, antiminorias e nacionalistas, como se vê em várias partes da Europa, e também nas figuras de Trump e Putin, reforça. Citando um pensador chinês, Cava lembra, no entanto, que "há caos sob o céu, a situação é excelente" para uma renovação profunda de métodos, discursos e de organização. (M.F.R./Zilma Santos,editora de Política)

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