Curitiba - A demora do governador Ratinho Junior (PSD) definir seu candidato à sucessão e a recente filiação do senador Sergio Moro ao PL poderá gerar uma polarização entre dois candidatos de direita na disputa pelo governo do Paraná neste ano. Para analistas ouvidos pela FOLHA, Ratinho Junior esperou demais, mas ainda tem força política para fazer seu candidato subir nas pesquisas e derrotar o ex-juiz da operação Lava Jato – que conta com rejeição entre setores políticos e ainda é considerado um “novato” no meio.

Até o fim de 2025, o caminho parecia aberto para o candidato do governador – que poderia ser o secretário das Cidades, Guto Silva; o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi; ou o ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca. A desistência de Ratinho Junior de disputar a Presidência da República e a filiação de Moro ao PL, no entanto, embaralharam o jogo. Líder nas pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora, Moro passou a disputar cada apoio no Estado, o que inclui deputados estaduais que até o início do mês faziam parte da base de apoio ao governo.

Uma demonstração clara da divisão no grupo que está no poder no Paraná há pelo menos 16 anos, desde o primeiro mandato do ex-governador Beto Richa (PSDB), ocorreu na quarta-feira (25), em Curitiba, quando 48 prefeitos dos 53 eleitos pelo PL no Estado em 2024 anunciaram a desfiliação do partido para apoiarem o candidato de Ratinho Junior - ainda uma incógnita. A tendência é que a divisão aumente ainda mais, pois Greca se filiou ao MDB e Alexandre Curi poderá disputar o governo pelo Republicanos.

SEM CARISMA

Para o analista político e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Elve Cenci, Moro tem uma boa intenção de votos em função de seu discurso antipetista – e não devido a articulações ou a uma grande capacidade de liderança. Além disso, não é considerado confiável por boa parte da classe política.

“Moro acabou de chegar na política. Foi ministro no governo Bolsonaro e se elegeu senador, mas não é uma liderança carismática ou de grupo. Não agrega nomes. Tem alguns poucos aliados pelo Estado. Faz discursos e se posiciona como de extrema direita. Fala insanidades, como questionar o resultado das eleições de 2022”, diz o analista. “Não é considerado confiável para agregar os partidos e lideranças que gravitam em torno do governo paranaense e que desejam permanecer no poder. Sua trajetória anti-PT, seu discurso de extrema direita e a memória da Lava Jato fazem dele um político sem apoios, grupos ou estrutura partidária, mas com muitos votos.”

Cenci diz avaliar que o presidenciável do PL, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), adotou uma “estratégia punitiva” em relação a Ratinho Junior. No início do mês, o governador foi convidado a ser vice de na chapa do PL, mas recusou porque ainda tentava consolidar sua candidatura à Presidência. Ao mesmo tempo, ao adiar a definição de seu sucessor, deixou de garantir um palanque para o presidenciável do PL.

“Flávio Bolsonaro percebeu que Ratinho, até então aliado da família Bolsonaro, poderia tirar muitos votos no Estado se fosse concorrente e adotou uma estratégia punitiva. Também necessitava de um palanque no Paraná”, afirma Elve Cenci. “Moro estava desconfortável no União Brasil. Ele era o participante que compareceu à festa sem ser convidado. Ao migrar para o PL, consegue um partido, mantém o discurso e alcança certa estabilidade.”

O receio da classe política que está no poder, diz o professor da UEL, é ficar de fora de um eventual governo Moro. “O Paraná tem um grupo político que está no poder há muito tempo. Ratinho saiu do governo de Beto Richa. Em torno da figura do governador gravitam deputados, empresários, lideranças e setores da sociedade organizada. São nomes de direita, pragmáticos, que agregam partidos políticos em torno de si”, afirma Cenci. “Uma eventual eleição de Moro gera insegurança. Moro não parece ser o político tradicional que, após a eleição, chama todos para conversar e governar. Ele está mais próximo do modelo bolsonarista, de um grupo fechado e restrito, ao qual todos devem obediência absoluta.”

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PARTIDO FRÁGIL

Para o cientista político e professor universitário Doacir Quadros, a debandada de prefeitos do PL mostra um partido frágil, sem programa, sem ideologia e com estratégias meramente eleitorais. “Internamente é um partido que convive com discordâncias sobre as coligações políticas e eleitorais, por não conseguir orientar os seus membros partidários a partir de um objetivo ideológico único. Essa debandada de prefeitos devido à filiação de Sergio Moro, antigo adversário político do partido em âmbito nacional, mostra que o PL é uma sigla que não possui conteúdo programático e que as decisões políticas e eleitorais sobre estratégias não são tomadas de acordo com a base partidária.”

O rompimento com o PSD de Ratinho Junior seria um exemplo da fraqueza programática do PL. “Tem lideranças do PL que são aliadas históricas do governador. Essas lideranças que supostamente apoiam o governador pretendem permanecer no poder. Isso mostra a fragilidade do PL no Paraná, como também em âmbito nacional. É um partido que tem uma organização partidária extremamente fraca, não ideológica e com objetivos puramente eleitorais.”

DEMORA

Na avaliação do cientista político e professor da PUCPR, em Londrina, Mário Sérgio Lepre, Ratinho Junior deveria ter definido seu candidato em 2024. “A aliança com o PL foi definida nas eleições municipais de 2024. Ficou bom para os dois lados e naquele momento ele deveria ter definido seu sucessor. Não haveria divisão no grupo. Mas ele perdeu o timing. Não política não existe vácuo, mas ele foi deixando.”

Apesar de Moro gravitar em torno dos 40% das intenções de voto nas pesquisas divulgadas até agora, Lepre diz acreditar que o candidato de Ratinho Junior entrará com força na disputa. Um dos cotados, depois de Greca deixar o PSD e Guto Silva praticamente ter sido descartado em função de seu mau desempenho nas pesquisas, é o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD). Ratinho Junior tem tentando convencer o prefeito, eleito em 2024, a deixar o cargo até o dia 3 de abril para concorrer ao governo.

“O nome do Eduardo Pimentel poderia unir o grupo. Poderia atrair o Greca, o Curi e Guto Silva. Mas, se ele não conseguir um nome que dê um amálgama, corre-se o risco de o Alexandre Curi ir para o Republicanos. E aí os votos se dividem, porque o Curi tem uma base muito forte no interior.”

Para Lepre, as restrições de boa parte do mundo político a Moro e a força dos governantes no sistema político brasileiros devem atrapalhar o ex-juiz. “Moro tem muitas arestas na política, quando era juiz e quando virou ministro. Ele sempre teve muitas arestas com a classe política. Por isso a dificuldade dele no União Brasil. Ele estava no União Brasil como candidato, mas não do PP. Para ele, (a filiação ao PL) caiu como uma luva. O erro foi do Ratinho, que demorou demais”, diz. “Mas o governador sempre tem muita força. O Brasil é um país em que prefeitos vivem da estrutura do Estado, muitas vezes vinculados aos deputados estaduais, que fazem esse meio–campo. Então, o governador tem muito poder. E principalmente porque ele vai continuar no mandato.”

A candidatura de Ratinho Junior à Presidência, diz o cientista político, poderia representar a chamada “terceira via” e tirar votos tanto de Flávio Bolsonaro quando do presidente Luiz Inácio do Lula da Silva (PT). “Seria o único candidato, além do Flávio e do Lula, que colocaria algo na disputa. Se ele bancasse a candidatura à Presidência, tiraria votos inclusive do Lula, porque o presidente está numa situação complicada. Tem um eleitor do Lula que é o eleitor mais simples, que poderia ser o eleitor do Ratinho. Seria algo bastante complicado para o Flávio e para o Lula. O Ratinho estaria no jogo. Não me parece que o Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul) e o Ronaldo Caiado (governador de Goiás) conseguirão fazer isso”, avalia Lepre.

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