Stédile prevê que 2005 será ano de mobilização
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domingo, 05 de dezembro de 2004
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
''A reforma agrária no Brasil caminha a passos de tartaruga''. A crítica é de João Pedro Stédile, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que participou, ontem, do 4º Encontro Nacional de Fé e Política realizado em Londrina. Dois anos após o início do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o representante do MST atribui à manutenção da política econômica ''neoliberal'' a culpa pela lentidão no processo de assentamentos. ''As altas taxas de juros só beneficiam as grandes empresas, os bancos e os exportadores'', opinou.
Outro fator que emperra os assentamentos, na opinião de Stédile, é a falta de estrutura do Estado ''para atender os pobres''. Segundo o dirigente, Poder Judiciário, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) não funcionam com agilidade. ''O Incra precisaria ter o dobro de servidores'', exemplificou.
O resultado deste quadro é que o governo não tem conseguido cumprir o compromisso de assentar 430 mil famílias nos quatro anos de mandato. Em 2004, segundo Stédile, foram 50 mil famílias assentadas, menos da metade das 115 mil famílias necessárias para manter a meta inicialmente prevista.
A política de Lula para reforma agrária também recebeu críticas de dom Tomás Balduino, presidente nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Para ele, os assentamentos não avançam por timidez do governo diante dos representantes do poder econômico do País. ''Não é questão de falta de dinheiro, mas de falta de coragem para enfrentar os grupos com os quais (Lula) tem alianças'', analisou ele, que também participou do encontro em Londrina.
O representante da CPT afirmou que o governo tem investido no modelo de produção exportador, que consegue divisas às custas de monoculturas como a soja, em vez de privilegiar a força de trabalho do País. ''É o modelo do Brasil colonial'', criticou. Balduíno defende que o prazo para manifestação de uma posição clara do Estado com relação à reforma agrária começa a se encerrar.
Apesar de restar só dois anos de governo Lula, Stédile acredita em avanços a partir de 2005. ''Deve haver crescimento de ações populares pedindo mudanças na política econômica'', afirmou, acrescentando que, nos primeiros dois anos não houve pressão da população. ''O ano que vem será de mobilização social'', prevê.
Ele lembrou que os dois períodos com maior concentração de assentamentos da história do País foram estimulados por movimentos sociais. No governo Sarney, o clima de redemocratização agilizou o processo. ''Entre 1997 e 1998, (o ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso ficou abalado com o massacre de Eldorado do Carajás (quando 19 trabalhadores sem-terra foram assassinados no Sul do Pará) e liberou recursos'', disse. Durante os 20 anos de existência do MST, 580 mil famílias foram assentadas no Brasil, em uma área total de 20 milhões de hectares.


