‘‘O senhor quer um jornal para ler enquanto espera?’’, perguntou o senador Gilvan Borges (PMDB-AP) ao ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, na sala da diretoria de segurança do Senado, localizada perto da garagem privativa dos senadores, no subsolo do prédio. Lopes foi levado para lá, logo depois de ter recebido a voz de prisão do senador Bello Parga (PFL-MA). ‘‘Não tenho lido nada nos últimos dias’’, respondeu. ‘‘Sou um homem execrado’’. Lopes estava abatido. ‘‘O senhor quer falar com alguém de sua família?’’, perguntou novamente Borges. ‘‘Já falei com minha esposa e ela já está tranquila.’’
A sala da diretoria de segurança do Senado ficou lotada. Além de Lopes e Gilvam Borges, estavam presentes os senadores Bello Parga, Romeu Tuma (PFL-SP) e Siqueira Campos (PFL-TO), além de um dos advogados do ex-presidente do Banco Central, Luiz Guilherme Vieira, e de assessores da CPI dos Bancos. Os senadores decidiram não lavrar o termo de prisão em flagrante de Francisco Lopes ali mesmo. Preferiram cumprir essa formalidade legal na Divisão de Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Dcoie) da Polícia Federal, para onde Chico Lopes foi levado depois de permanecer cerca de 40 minutos na sala da diretoria de segurança do Senado.
Francisco Lopes fez pelo menos um telefonema enquanto esteve preso nas dependências do Senado, de acordo com senadores que estavam presentes. O advogado Luiz Guilherme Vieira também utilizou o telefone celular. Vieira, que foi expulso da sala de depoimentos da CPI dos Bancos e estava muito nervoso, queixou-se aos senadores do tratamento que recebeu. Na sua avaliação, a sua expulsão foi um cerceamento do direito de defesa do seu cliente.
O senador Bello Parga quis ter ao seu lado, durante todo o tempo que passou com Francisco Lopes pelo menos dois outros senadores. Quando o ex-presidente do Banco Central foi levado para a Superintendência da Polícia Federal, Belo Parga foi acompanhado dos senadores Romeu Tuma e Gilvam Borges. O senador Siqueira Campos alegou um compromisso e permaneceu nas dependências do Senado.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) deixou às pressas a reunião da CPI e dos líderes partidários no gabinete da presidência do Senado para também acompanhar os colegas à Polícia. Na Superintendência da PF, o termo de prisão por desacato à autoridade e por desobediência foi lavrado na presença do delegado Paulo de Tarso Teixeira.
No Rio, o procurador da República Davy Lincoln, que trabalha no inquérito que apura o favorecimento pelo Banco Central (BC) dos Bancos Marka e FonteCindam, disse ontem que o ex-presidente do BC Francisco Lopes ‘‘perdeu uma grande oportunidade de se defender, quando se recusou a falar na CPI’’. Para ele, essa atitude ‘‘só vem confirmar as suspeitas de que o Ministério Público está no caminho certo’’.
Lincoln informou que a atitude de Lopes e sua prisão não interferem no inquérito no qual ele e os procuradores Bruno Caiado, Raquel Branquinho e Artur Gueiros estão trabalhando. ‘‘Para nós, é indiferente ele estar preso ou não, porque nossas suspeitas vão se concretizar com a perícia dos documentos apreendidos’’, disse. Lincoln, no entanto, demonstrou surpresa porque acreditava que Lopes ‘‘fosse abrir o verbo’’. Um dos delegados que trabalha no inquérito aberto na Polícia Federal (PF) confirmou que a prisão do ex-presidente do BC não afeta as investigações, mas ‘‘causa um embaraço’’.

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