‘‘Sou muito amado e muito odiado’’
Folha O que motivou sua entrada na política?
Luizinho Tenho um jeito alegre de viver, sempre promovendo coisas e conquistando pessoas. Desde quando assumi minha primeira paróquia, em Sabáudia, sempre fui sondado por lideranças locais para entrar na política. Sou da Renovação Carismática e graças a Deus as missas têm sempre grande participação dos fiéis. Vendo a popularidade do sacerdote, os políticos correm atrás querendo fazer alianças. Isso também ocorreu na minha passagem por Itaguajé. Quiseram me filiar a partidos políticos e me ofereceram cargos, mas não aceitei. Em Ivaiporã, com apenas três anos na cidade, sem conhecer direito as pessoas e o município, quando percebi já estava dentro da política. Graças a Deus tive um bom desempenho eleitoral, com mais de 8 mil votos, fiz mais de 50% dos votos válidos.
Folha Mas qual era o seu desafio pessoal nessa empreitada numa área tão diferente do sacerdócio?
Luizinho Como padre, sempre fui muito bem-aceito pelas paróquias onde passei. Muito amado e respeitado, mas nunca fui feliz com isso. Por quê? Porque Jesus foi um homem odiado e eu queria ter essa experiência. De ser rejeitado, de sentir a ingratidão, de ser odiado. Eu precisava disso. Não deu outra. Senti na pele o que Jesus sentiu. Tanto o ser amado como o ser odiado. Hoje eu sou muito amado e também muito odiado.
Folha Qual a reação da Igreja quando foi anunciada a sua decisão de entrar na política?
Luizinho No começo foi muito difícil. Os leigos, os padres e até o bispo de Apucarana, dom Domingos Gabriel Wisniewski, todos me aconselharam a não sair. Mas já era tarde. Quando eu vi já estava dentro e não tinha como voltar. Depois que eu saí, o bispo foi muito compreensivo. Ele me estimulou e disse palavras de encorajamento para que eu tivesse sucesso na administração. O risco era grande, mas graças a Deus tenho procurado honrar a confiança do povo de Ivaiporã.
Folha Como foram os primeiros meses à frente da prefeitura?
Luizinho Foram de muito sofrimento. Eu queria realizar muitas coisas, mas não tinha condições. Apareciam no gabinete dezenas de pessoas pedindo e reivindicando coisas que eram impossíveis de se atender. Dizer não foi algo que me machucou muito. Tive que dizer muito não em benefício da coletividade. Se ajudasse só no individual não teria como atender a comunidade no seu todo. O meu primeiro ano de mandato foi terrível. Nunca rezei tanto na minha vida. Eu levantava, rezava direto e ia para a prefeitura pedindo a ajuda de Deus. Ali, não estava só o cidadão Luiz Pereira, o prefeito, mas o padre Luizinho, o representante da Igreja e que durante a eleição contou com grande apoio dos evangélicos, o que aumentava minha responsabilidade. Só depois de um ano eu sarei dessa angústia. Fui muito criticado no primeiro ano porque eu não fiz nada. Eu tinha até vergonha de andar na rua de tanto ouvir cobranças. Minha maior preocupação era segurar tudo em todas a áreas. Com 780 funcionários, praticamente só mantive o pagamento de salários e fornecedores. Só a partir do segundo ano é que comecei a batalhar pelas coisas que faltavam em Ivaiporã.
Folha E a corrupção dos bastidores, como foi conviver com isso? O senhor recebeu alguma proposta indecente?
Luizinho Foram várias. Qualquer compra que a prefeitura faz tem gente oferecendo 10% de comissão. É um absurdo. Como sou padre, não faziam a proposta para mim, pessoalmente, mas usavam terceiros. Isso é direto, inclusive ainda hoje. Esse era um mundo que eu desconhecia. O mundo da política é muito falso, traiçoeiro. Você tem que saber com quem fala.
Folha O senhor, como padre, sentiu na pele o jogo pesado do submundo da política. Existe alguma chance de um político tradicional escapar dessa tentação com tantas propostas indecentes rondando os gabinetes?
Luizinho É uma catástrofe! Meu Deus! É uma coisa inexplicável. A corrupção é grande em todos os níveis. Tem coisa que você nem acredita. A pessoa está ali para fiscalizar, para orientar, mas acaba se corrompendo. Eu até já pensei em denunciar, mas não adianta. Se fosse padecer só eu, tudo bem, mas é a comunidade que vai deixar de receber ajuda. Qualquer atitude minha significaria grande prejuízo para Ivaiporã. Só fica de fora disso quem tem uma formação sólida, muita fé em Deus e uma família equilibrada.
Folha A corrupção não começa na campanha com promessas impossíveis de cumprir e, acima de tudo, na oferta de favores em troca de votos?
Luizinho Sem dúvida, essa é a realidade da nossa política. Essa corrupção é uma prática que a Igreja sempre combateu, e eu também porque contraria o princípio do voto consciente, de se escolher o melhor candidato, aquele que tem propostas e objetivos definidos. Mas essa corrupção eleitoral é muito forte. É um questão de cultura, de educação. O nosso povo sabe que agora, na época da eleição, é a hora de conseguir benefícios pessoais.
Folha O que fazer para mudar esse estado de coisas?
Luizinho Percebi uma reação no País. A CPI do Narcotráfico, a prisão de gente importante, inclusive com envolvimento em escândalos do sistema financeiro e sonegadores. Isso mostra que alguma coisa está sendo feita para diminuir a impunidade. Mas é pouco. Também tenho visto os prefeitos muito assustados com a Lei Responsabilidade Fiscal. Muitos estão sendo processados por desvio de verbas e improbidade administrativa. É um sinal de mudança. Isso só irá diminuir quando houver uma educação para a cidadania, através da conscientização e da aplicação severa da lei.
Folha Nesses três anos e meio o senhor tem convivido muito com outros prefeitos. Qual a avaliação da atuação e da postura deles?
Luizinho Acho que deveria haver uma reciclagem. Penso que os prefeitos deveriam ter mais amor pelas comunidades que representam. Muitos estão no cargo pela ganância pessoal. Lutam pelo poder, mas não para mudar a realidade social.
Folha Qual o paralelo que o senhor faz, em termos de ambiente mesmo, entre o gabinete da prefeitura e o seu escritório na igreja?
Luizinho São dois ambientes completamente diferentes. Na prefeitura, eu me sinto como se estivesse no purgatório, enquanto a Igreja é o meu paraíso. No gabinete, é o ambiente da política, dos pedidos, do interesse, mas, por outro lado, foi ali que eu pude fazer muitas coisas em benefício da comunidade. Nunca me acostumei nem com o nome de prefeito. Prefiro que as pessoas me chamem de padre. Também não me acostumei com o poder.
Folha Por que o senhor não quis concorrer a reeleição?
Luizinho Porque foi um experiência muito sofrida. Quando se chega ao final do mandato a pessoa já está cansada. Outro fator importante: se eu continuasse na política, segundo as normas da Igreja e da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - eu teria que deixar o sacerdócio. Isso não poderia acontecer porque o meu ministério é a coisa mais importante da minha vida. Foi para isso que Deus me chamou e Ele vai me cobrar isso um dia.
Folha O senhor quer dizer que vai encerrar sua carreira política?
Luizinho Não quero dizer que a minha carreira política está encerrada. Daqui a dois anos tem eleição para deputado. Não tenho vaidade e nenhuma pretensão pessoal. Agora, se eu estiver em Ivaiporã e o meu nome for o escolhido pela comunidade, talvez eu possa sair. Mas a minha prioridade é o sacerdócio. Esse é meu dom, a minha vida. O cargo de prefeito, para mim, foi como uma coroa de espinhos, inclusive na minha vida financeira pessoal.

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