São Paulo - As mais de 180 interceptações telefônicas determinadas pela Justiça Federal em Brasília já registravam, em março, conversas com citações a juízes supostamente envolvidos em atos de corrupção. O agente da Polícia Federal (PF) César Herman Rodrigues - que foi preso na quinta-feira - foi diversas vezes captado pelos grampos fazendo referências até de reuniões com magistrados.
As conversas constam de relatório do Departamento de Polícia Rodoviária Federal - a executora dos grampos, ao lado do Ministério Público Federal (MPF). O documento separa os agentes públicos envolvidos com crimes em esferas de cada instituição. É na parte sobre ''Servidores da Polícia Federal'' que César se destaca.
O agente da PF era homem de confiança do juiz João Carlos da Rocha Mattos, titular da 4Vara Criminal Federal de São Paulo, acusado de ser o mentor de uma quadrilha suspeita de corrupção, prevaricação, facilitação de contrabando, lavagem de dinheiro, além de tráfico de influência na emissão de sentenças favoráveis a contrabandistas, doleiros e empresários processados por delitos tributários e outros tipos de crimes.
A Procuradoria da República também pediu a prisão do juiz, mas a desembargadora Therezinha Cazerta decidiu que vai antes analisar o material apreendido na casa de Rocha Mattos e da ex-mulher dele, Norma Regina - que também está presa.
O agente da PF garante ter tanto trânsito no Judiciário que o próprio autor do relatório da escuta, o coordenador-geral de operações da Polícia Rodoviária Federal, Reinaldo Szydloski, conclui que ele seria um delegado: ''Outro registro a fazer, pois merece atenção, é o relativo a um nome citado 'Cesar Herman' provavelmente delegado federal'', diz o documento de caráter sigiloso.
As conversas que estão sendo captadas têm como alvo o empresário Ari Natalino da Silva, dono da rede de postos Petroforte e apontado pelo MPF como um dos maiores fraudadores de combustíveis do País. Na época do grampo, Natalino estava preso por crimes fiscais por ordem do juiz Ali Mazloum, da 7 Vara Criminal Federal - também implicado pelo MPF como integrante da quadrilha liderada por Rocha Mattos. O outro juiz acusado é o irmão de Ali, Casem Mazloum, da 1 Vara Criminal Federal.
No período do dia 6 ao 14 de março, o advogado de Natalino, Wellengton de Souza, é captado pelo grampo contando ao seu cliente o teor de uma conversa com Cesar. O empresário estava internado no Hospital Albert Einsten sob a escolta de policiais federais. No diálogo Wellengton revela que Cesar teria marcado uma reunião com um juiz. O objetivo era o de tentar reverter a ordem de prisão de Natalino e da ex-mulher dele, Aparecida Maria Pessuto - que estava foragida.
''Wellengton comenta com Ari que falou com Cesar, cobrando a tal reunião, e que o mesmo indagou a Wellengton se o mesmo tem cacife ou não para ir, ao que é respondido que sim'', diz o relatório. Em seguida, o policial rodoviário descreve que ''a tal reunião tratava de um encontro marcado no Hotel Hilton com o Dr. Alexandre e um tal juiz, às 17 horas, onde Wellengton informou que seria tratado de valores''.
O doutor Alexandre citado na conversa é o corregedor da PF, Alexandre Crenite, que foi preso por ordem do próprio Ali Mazloum, no dia 8 de setembro. O pedido de prisão do delegado foi feito pelo MPF com base nas escutas. Crenite teria negociado o pagamento de propina para não prender a mulher de Natalino e para deixar de cumprir mandados de busca e apreensão contra o empresário.
Foro privilegiado Em outro trecho do relatório, o guarda rodoviário destaca o envolvimento ''das autoridades com foro privilegiado''. O policial faz até um juízo de valor das escutas: ''...determinadas autoridades foram citadas e outras se encontram envolvidas com situações dignas, no mínimo de censura''.
Às 17h21 do dia 6 de março, foi gravada conversa na qual o advogado de Natalino conversa com César, descrito no relatório como ''pessoa que possui função de acesso a processos, tem acesso a juiz e tem contato com dr. Alexandre, delegado da PF''. No diálogo, César diz ainda que ''é preciso acertar as coisas''. O advogado responde que ''tem que ir lá no Árabe para ver as coisas''. O agente da PF responde que ''está indo aonde tem que ir''.
Em seguida, Wellengton pergunta novamente a Cesar se ele ''está indo ao Árabe'' e o agente reafirma que ''está indo ao principal para manter as coisas como estão e que ele o fará como um pedido pessoal de um trato que ele fez''.
Ali Mazloum acabou condenando Natalino a 4 anos e meio de prisão, mas ele foi libertado por ordem da desembargadora Suzana Camargo, do Tribunal Regional Federal (TRF), que lhe concedeu um habeas-corpus. O juiz foi denunciado pelo MPF porque teria ameaçado os policiais rodoviários para que entregassem todas as escutas que envolveram o delegado Crenite. Para os procuradores da República, o magistrado estava preocupado em descobrir se ele e Cesar estavam com os telefones grampeados.

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