A socióloga Maria Lúcia Victor Barbosa, de Londrina, autora do livro ‘‘O voto da pobreza e a pobreza do voto’’, não poupou críticas à proposta da deputada Marta Suplicy de reservar vagas femininas aos partidos políticos. Para ela, a emenda é ‘‘altamente discriminatória, humilhante, absurda, populista e demagógica’’.
Ela argumenta que o dispositivo mais parece ‘‘esmola’’. ‘‘Esse ‘lobby do batom’ é um verdadeiro demérito. Funciona assim: ‘Ah, a mulher não tem capacidade, então, coitada, vamos deixar umas vaguinhas reservadas para ela’’, argumenta.
Maria Lúcia acredita que a mulher ainda se interessa pouco pelos cargos eletivos por consequência de um condicionamento que durou séculos e se baseia na história do Brasil patriarcal. ‘‘O voto feminimo só apareceu no anteprojeto da Constituição de 34’’, relembra. A socióloga acredita, porém, que a ínfima participação da mulher no mundo político não se restringe ao Brasil. ‘‘Quantas mulheres se destacaram e se destacam, de fato, neste cenário?’’
Ao contrário de Maria Lúcia, a socióloga carioca Delaine Martins Costa, coordenadora do Núcleo de Estudos Mulher e Políticas Públicas do IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal), avalia a emenda da deputada Marta Suplicy como uma estratégia positiva para implementar ações afirmativas do papel da mulher na sociedade.
‘‘Como não temos uma democracia plena, que contemple os direitos dos homens e das mulheres em termos de representação e participação, iniciativas como a da deputada são pertinentes para incentivar a participação feminina e iniciar uma discussão sobre seu papel na sociedade’’. Ela cita o caso argentino, que fixou o sistema de cotas em 1991. ‘‘Hoje o país garantiu praticamente 30% da participação feminina na política’’.
Para a socióloga, no Brasil a pouca participação da mulher na política também reflete o descaso com a classe nas empresas. ‘‘Basta observar o papel da mulher nas empresas, onde elas ainda ganham de 30% a 40% menos, mesmo ocupando postos idênticos aos dos homens. Os estudos apontam que não estamos falando de uma democracia plena e sim de um processo que privilegia determinado grupo de pessoas: homens, brancos e com poder econômico’’, acredita. (P.Z.)

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