Sociólogo vê contradição entre políticas interna e externa
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sábado, 05 de novembro de 2005
Roldão Arruda<br> Agência Estado 
São Paulo - No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a política externa não bate com a política interna. Na verdade uma contradiz a outra como se não fizessem parte do mesmo governo.
A constatação é do sociólogo Williams Gonçalves, professor do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF). Num estudo que acaba de concluir sobre o assunto, sob o título ''A Nova Política Externa Brasileira e os Velhos Adversários'', ele observa que enquanto no plano externo o governo procura se mostrar altivo e dinâmico, desafiando a ordem estabelecida pelas grandes potências e ameaçando alterar o eixo diplomático do Brasil, transferindo-o dos Estados Unidos para a China, no plano interno Lula opera com um conformismo exacerbado. ''A conquista da confiança dos organismos financeiros internacionais, a produção de superávit primário e o religioso pagamento da dívida externa são provas incisivas da falta de alinhamento entre política interna e política externa'', diz Gonçalves. ''Não é por acaso que George Bush diz que Lula é seu interlocutor na América do Sul.''
Em seus dois mandatos, o presidente Fernando Henrique Cardoso orientou as ações externas do Brasil de acordo com uma visão liberal das relações internacionais, segundo o professor Gonçalves. Na prática, tal concepção estratégica se traduziu no bom entendimento com os EUA e no fortalecimento do Mercosul.
Lula tomou outro rumo. Gonçalves diz que o PT nunca definiu claramente sua política externa e, ao assumir o governo, encampou o pensamento dos diplomatas da linhagem nacionalista do Itamaraty. Com raízes no início dos anos 60, essa linhagem conta entre seus ideólogos com o ministro Celso Amorim e os diplomatas Samuel Guimarães e Rubens Ricupero.
A versão mais recente dessa política nacionalista, segundo ele, tinha sido o pragmatismo responsável do general Ernesto Geisel, nos anos do regime militar. Ela se estendeu até o governo de José Sarney, foi nocauteada por Fernando Collor e voltou à tona com Lula.
Na opinião de Gonçalves será uma sobrevida de curto prazo. Ele observa que a política externa de Lula tem sido criticada por setores empresariais, para os quais o País estaria perdendo oportunidades comerciais. Também enfrenta resistências entre intelectuais de esquerda, que a consideram subordinada à burocracia do Estado e pouco ideológica.
O professor acredita que Lula mudará sua política externa durante as negociações que fará em busca de apoio no processo eleitoral do ano que vem. Se não o fizer, dificilmente outro governo seguirá as diretrizes atuais. ''Os nacionalistas do Itamaraty não tiveram sorte'', diz. ''Demoraram muito tempo para embarcar de volta no governo e o fizeram com um governo muito complicado.''


