BRASILÍA - A CPI dos Precatórios recebeu uma segunda denúncia de tentativa de suborno na madrugada de ontem. Luiz Calabria, um dos sócios da corretora Perfil, disse que recebeu uma proposta de R$ 500 mil para instalar na empresa um computador de Wagner Ramos, ex-assessor do prefeito Celso Pitta (São Paulo).
O computador conteria o programa utilizado por Wagner Ramos para ‘‘corrigir’’ o valor dos precatórios (dívidas judiciais) de Estados e municípios, elevando artificialmente as quantias devidas. ‘‘Um assessor do Wagner ligou e disse que queria colocar um computador lá, para incriminar ainda mais a Perfil’’, disse Calabria, durante o depoimento à CPI.
Ao instalar o computador da empresa, o objetivo de Ramos seria se livrar do estigma de ‘‘arquiteto’’ do esquema de emissão de títulos públicos em valores acima das dívidas judiciais, o que é proibido pela Constituição. A proposta de suborno teria sido feita no mesmo dia do depoimento de Wagner Ramos à CPI (20 de fevereiro).
Ao depor, Ramos procurou se apresentar como um simples assessor da Perfil, que teria recebido apenas R$ 150 mil por serviços de consultoria. Os depoimentos dos proprietários da corretora, porém, derrubaram a versão, demonstrando que a empresa era ‘‘usada’’ por Ramos para receber comissões milionárias do banco Vetor, também envolvido no esquema.
A CPI considera que Ramos esteve por trás das emissões irregulares de títulos de Alagoas (R$ 301,6 milhões), Pernambuco (R$ 480 milhões) e Santa Catarina (R$ 605 milhões), além de municípios como Guarulhos, Osasco e Campinas (SP).
Luiz Calabria disse que o Banco Central promoveu uma fiscalização de três meses na corretora Perfil, mas não teria detectado irregularidades praticadas pela empresa.
Segundo a ‘‘Folha de S.Paulo’’ apurou, o BC começou a investigar a empresa no início do ano passado, mas avaliou que liquidar a empresa prejudicaria a apuração do restante do esquema com títulos públicos. Calabria disse que os técnicos do BC estiveram na corretora entre os meses de agosto e novembro de 1996.
O depoimento demonstrou que a corretora era usada como ‘‘fachada’’ por Wagner Ramos. ‘‘O Wagner não podia receber comissão como pessoa física. Foi aí que nós entramos’’, afirmou Calabria.
A decisão de colocar a corretora a serviço do esquema foi tomada por uma questão de ‘‘sobrevivência’’, segundo o empresário.
‘‘A corretora estava quase quebrando. Ou a gente fechava ou arrumava alguma receita. O que ganhamos não ganharíamos nem em quatro ou cinco anos’’.
A proposta para entrar no esquema teria sido feita pela corretora Negocial. ‘‘Foi a Negocial que nos apresentou o Wagner.’’ A montagem das operações no mercado futuro era feita pela Negocial, segundo Calabria.
‘‘A gente só assinava.’’ De acordo com o empresário, a Negocial costumava mostrar um suposto ‘‘parecer da Receita Federal’’ para comprovar que as operações eram ‘‘lícitas’’.

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