Sociedade diz que falta sintonia popular
Patrícia Zanin
Falta de sintonia com os anseios da sociedade e aprovação de leis superficiais, inoperantes e que, na maioria das vezes, não beneficiam a população. Essas são as principais críticas feitas por lideranças ouvidas pela Folha em relação ao trabalho da Assembléia Legislativa neste semestre.
Para o presidente da seção Paraná da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Edgar Luiz Cavalcanti de Albuquerque, os deputados deveriam olhar mais para os lados e para trás e buscar uma aproximação com o povo. Infelizmente existe um abismo entre o povo e a classe política, que não atende aos anseios da população, criticou.
Ele disse que os parlamentares precisam entender que foram eleitos pelo povo e qualquer privilégio deve ser abandonado em nome do povo. O presidente da OAB criticou a tentativa da compra de carros importados pela Assembléia, no início do ano, e o aumento de 100% para cargos comissionados que recebem R$ 1,6 mil. Não fizeram por merecer elogios, afirmou Albuquerque.
Para o presidente da APP-Sindicato, Romeu Gomes de Miranda, neste período de seis meses, a Assembléia poderia ter afinado sua sintonia com os anseios da sociedade civil. Faltou sensibilidade e, em alguns casos, mostrou que está na contramão dos interesses sociais, criticou. Ele referiu-se à aprovação pela Assembléia do novo modelo de Previdência do Estado, a Paranaprevidência, que está sendo alvo de uma série de liminares. Alertávamos os deputados que a aprovação, da forma como foi feita, traria uma série de problemas, mas eles não acolheram uma emenda sequer.
Mas a APP não faz só críticas. Miranda disse que os deputados têm dado sinais de que não estão dispostos a servir cegamente ao governo, ao admitir a discussão do plano de cargos e salários dos professores. Depois de um ano engavetado, a Assembléia acolheu nossa reivindicação de discutir o plano. Esperamos que eles retomem o semestre com essa proposta. Não de obedecer os interesses do governo, e sim da sociedade.
Na opinião do presidente da Federação das Associações de Municípios do Paraná (Femupar) e prefeito de Cambé, José do Carmo Garcia (PTB), a Assembléia teve papel importante ao garantir emendas no Orçamento para todos os municípios do Estado. As emendas foram patrocinadas pelos deputados para todos os municípios e não para este ou aquele, elogiou. O dirigente disse ainda que o bloco municipalista da Assembléia tem tido papel importante no acompanhamento das reivindicações dos municípios.
Elogios também são feitos pelo presidente da Sociedade Rural do Paraná, Francisco Galli. Para ele, o melhor fato do semestre foi a constituição, na Assembléia, da bancada ruralista. Os deputados ligados ao setor rural mostram a situação no Estado, divulgam seus problemas e têm trabalhado no sentido de resolvê-las. A bancada ruralista lutou pelo cumprimento das reintegrações de posse de áreas ocupadas por sem-terra, o que, na opinião de Galli, contribuiu para o governo tomar uma atitude.
A pressão da bancada ruralista pela desocupação de fazendas invadidas também é destacada pela socióloga de Londrina e colunista da Folha Maria Lucia Victor Barbosa. Foi uma atitude corajosa e correta, um ato positivo dessa legislatura.
Apesar do elogio, Maria Lucia disse que a Assembléia do Paraná continua seguindo a tradição do Legislativo no Brasil, que é proliferar a aprovação de leis superficiais, inoperantes e que não beneficiam a população como um todo. Muitas vezes políticos também legislam em causa própria, com uma frequência contumaz, e esse é um dos fatores que faz com que o povo, de um modo geral, ter uma percepção negativa do político.
A socióloga lembrou que a Assembléia do Paraná só voltou atrás da compra dos carros importados por causa da repercussão negativa da opinião pública. O eleitor está mais atento, mais perceptivo e enxerga mais os deslizes de quem deveria dar bons exemplos.
BALANÇO
- Ao todo foram 62 sessões ordinárias
- E outras 11 sessões extraordinárias
- Aprovados sete títulos de cidadão honorário
- Apreciados cerca de outros 80, de utilidade pública
- Uma média de 30 requerimentos por sessão
- R$ 4,4 mil em jetons por deputado
- R$ 90 mil em verba de gabinete, fora os carros
- R$ 2,5 mil a mais em gratificação, a partir de junho
- R$ 36 mil brutos em salários (R$ 6 mil por mês)
- R$ 21 mil brutos em verba de assistência social
- R$ 21 mil brutos em verba de ressarcimento
- bolo médio da despesa do semestre só com deputados: R$ 9,3 milhões
- R$ 173 mil per capita
- Pontos positivos: guerras ao Sonae e à indústria da multa
- Pontos negativos: carros de luxo e verbas de gabinete





