Sob temor de 'crise sem precedente', Alcolumbre tenta pacificar relação entre Bolsonaro e STF


DANIEL CARVALHO E IARA LEMOS
DANIEL CARVALHO E IARA LEMOS

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Afirmando temer o que chamou de "crise sem precedentes", o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), foi ao Palácio do Planalto nesta quinta-feira (28) em uma tentativa de pacificar a relação entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o STF (Supremo Tribunal Federal).

Sem agenda pública nesta tarde, o gabinete de Bolsonaro, no terceiro andar do Planalto, estava abarrotado de militares e civis, como os ministros Paulo Guedes (Economia), André Mendonça (Justiça), José Levi (AGU) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa), além do deputado Helio Lopes (PSL-RJ), aliado do presidente.



O clima, segundo relatos, era de tensão. Bolsonaro já havia demonstrado sua irritação mais cedo, pela manhã, quando o presidente da República disse a jornalistas que "ordens absurdas não se cumprem".

Diante da crescente apreensão, Alcolumbre conversou com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com ministros do STF e parlamentares e se colocou como bombeiro para tentar conter um estrago maior.

Com a anuência dos demais, o presidente do Senado pediu a audiência com Bolsonaro, que o recebeu por cerca de uma hora nesta tarde. Parte da reunião foi fechada, mas outra foi diante de mais pessoas.

Segundo relatos feitos à reportagem, Alcolumbre disse que era preciso calma e responsabilidade. Alegou que o Congresso estava sendo responsável, mas que era preciso o mesmo do Executivo e do Judiciário. Bolsonaro reclamou, então, do que considera excessos do Supremo.

Alcolumbre insistiu na necessidade de pacificação para evitar uma crise sem precedentes, observação à qual, de acordo com presentes, Bolsonaro reagiu em silêncio.

O presidente do Senado saiu do Planalto com a sensação de que, ao menos nas próximas horas, Bolsonaro não tomaria nenhuma medida extremada.

"Levei uma mensagem para o presidente, ele se solidarizou com a mensagem. Então agora é calma. Serenidade e calma, porque nenhum lado vai vencer se um estiver enfraquecido", disse Alcolumbre a senadores após a reunião.

Aos pares, o presidente do Senado disse que a conversa foi "boa, muito franca".

Durante a reunião, Alcolumbre não disse aos senadores se irá convocar o ministro da Educação para prestar esclarecimentos, como foi aprovado em requerimento em plenário pelos parlamentares.

Além de demonstrar indignação com a operação policial ordenada pelo STF ter atingido empresários, políticos e ativistas bolsonaristas na quarta-feira (27), o presidente manifesta irritação com a possibilidade de prisão de seu ministro da Educação, Abraham Weintraub.

Essa situação extrema ocorreria caso ele se recuse a cumprir determinação do Supremo Tribunal Federal para prestar depoimento.

O ministro da Justiça ingressou com um pedido de habeas corpus para Weintraub a fim de "garantir liberdade de expressão dos cidadãos". Com o pedido de habeas corpus, a ideia é impedir qualquer medida cautelar contra o ministro da Educação.

Em reunião ministerial em 22 de abril, o ministro disse que "colocaria todos esses vagabundos na cadeia, começando no STF".

A tensão cresceu ao longo do dia porque, de um lado, o Executivo não sabia como o Supremo reagiria a esta medida. Do outro lado, os demais Poderes não calculavam qual seria a reação de Bolsonaro após uma decisão do Judiciário.

Bolsonaro já vinha irritado com o STF por causa da decisão do decano Celso de Mello de tornar público o vídeo da reunião ministerial realizada em abril e com o fato de o ministro ter, como medida de praxe, encaminhado à PGR (Procuradoria-Geral da República), pedidos de partidos e parlamentares de oposição para que o celular de Bolsonaro fosse apreendido.

Na ocasião, o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, divulgou uma nota dizendo que uma eventual medida nesse sentido poderá ter "consequências imprevisíveis".

Nesta quinta, Heleno negou que o conteúdo do texto seja alguma sinalização em direção ao autoritarismo.



À tarde, Bolsonaro publicou em uma rede social um vídeo do jurista Ives Gandra cujo título é "A politização no STF e a aplicação pontual da 142". O artigo 142 da Constituição determina que as Forças Armadas só podem ser convocadas a intervir para manter a ordem em caso de anarquia por algum dos Poderes.

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