Além das memórias do cárcere e da tortura, os presos políticos ouvidos pela reportagem relataram que os 21 anos de ditadura militar acarretaram em problemas no campo profissional. Formado em Letras, o presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Narciso Pires, hoje com 64 anos, teve sua licença cassada. "Fui impedido de lecionar até nas escolas privadas. O recurso era o chamado atestado de antecedentes criminais, que não nos deixava participar de concursos públicos, nem tirar carteira de motorista. Para se ter uma ideia, fui preso em 1975 e só consegui um emprego decente em 1983", contou.
Nascida no interior de Santa Catarina, a advogada Clair da Flora Martins chegou à capital paranaense em 1964, aos 18 anos, para prestar vestibular. Com o recrudescimento do regime e o envolvimento na luta contra a repressão, porém, teve de se afastar da carreira. A retomada se deu em 1979, no escritório dos companheiros Edésio Passos, Claudio Ribeiro e Luiz Salvador, também advogados. "Era uma situação difícil, porque éramos vigiados o tempo todo, mas ao mesmo tempo foi um processo muito rico. As lutas que a gente vivenciou ajudaram a formar a minha personalidade."
Mesmo fichados, Luiz Manfredini e Zélia Passos contaram com a colaboração de seus empregadores na época. Durante os 35 dias em que ficou preso em 1971, o jornalista continuou sendo pago pelo extinto jornal "O Estado do Paraná". "De qualquer forma, éramos visados; recebíamos cartas ameaçadoras e coisa do gênero", relatou.
Já Zélia viveu situações diferentes na UFPR e na Prefeitura de Curitiba. Enquanto a universidade a entregou um ofício demitindo-a de suas funções – situação só revertida depois, com a anistia -, a administração municipal a manteve. "O Jaime Lerner surpreendentemente não me destituiu do cargo de confiança. Tenho essa dívida de gratidão, mesmo nós sendo adversários. Só que quando saí, fomos conversar e ele disse: ‘sofri pressões homéricas para te tirar’. Então sugeri a transferência para o Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), onde fiquei por 20 anos." (M.F.R.)

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