''Se democracia é isso, que volte a ditadura.'' A frase está estampada em um muro no centro da cidade, de frente a uma das avenidas mais movimentadas de Londrina e demonstra a indignação do comerciante Ademir Carlos Catore, 52 anos, com o momento político atual. ''Pela situação que estamos vivendo, pelo o que está acontecendo no País. Pode não ser a melhor saída, mas é uma maneira de expressar a minha indignação. Estamos pior do que na ditadura, colocando alguém no poder para fazer bandalheira, fazer o cidadão de bobo. Não estou contente com a situação. O dinheiro arrecadado é desviado, não vemos progresso'', justificou.
''Para mim, como cidadão que nunca teve problemas com a Justiça, (o período da ditadura) foi bom. Nunca me faltou comida. Agora, estou chegando ao ponto de não ter dinheiro nem para pagar os impostos'', reclamou Catore, que serviu o Exército em 1972.
A postura de Catore reflete o posicionamento da maioria dos brasileiros, conforme a pesquisa realizada pelo Instituto Latinobarômetro, do Chile, em 2002. O instituto fez um levantamento em 17 países latino-americanos e concluiu que no Brasil, 37% dos entrevistados apóiam a democracia, contra 62% que disseram não se importar com um governo não democrático. ''Pela pesquisa, o brasileiro é um dos que mais apóia um regime ditatorial e isso é na realidade um descontentamento com a situação que encontramos. Acho que é ruim. Na realidade se prometeu muito para a democracia brasileira'', analisou o cientista político Mário Sérgio Lepre.
''O regime militar brasileiro tinha a característica do desenvolvimento econômico até a decada de 70. O último governo militar, o (João Baptista) Figueiredo (1979-1985), já comprometeu o desenvolvimento econômico. Quando começamos a brigar pelas Diretas Já, um dos motivos pelos quais o povo se inflamou foi a idéia que com a democracia teríamos não só uma liberdade mas também aquilo que faltava, que era o desenvolvimento em um período de inflação muito alta. Vendeu-se a democracia como a solução. Quando vem a democracia e ela demora para fazer esse resgate, ocorre um descontentamento'', refletiu Lepre.
Segundo o cientista político, o povo brasileiro vive sucessivas frustrações desde o nascimento do regime democrático, sensação agravada pelas denúncias de irregularidades na administração do petista Luiz Inácio Lula da Silva, que se apresentava como ''uma nova salvação''. ''Desde a época das Diretas Já se prometia muito e houve frustração. O governo (José) Sarney piorou em relação ao do Figueiredo. Veio a Constituição e frustração novamente. Frustração com (Fernando) Collor, depois o Fernando Henrique Cardoso, em que não houve desenvolvimento econômico com distribuição de renda e depois o governo Lula, o governo daqueles que sempre atacaram e que seriam a nova salvação. Nunca tinham estado no poder e novamente uma frustração. Esse excesso de frustração dá essa sensação de que a democracia não está resolvendo os problemas da população, o País não cresce, não distribui renda.''
Lepre acredita que, apesar da consolidação da democracia no Brasil, o risco é o surgimento de ''salvadores da Pátria''. ''Pode aparecer aquele que vem lá de trás e se coloca como diferente e ganha o apoio popular para um candidato salvacionista. No ambiente democrático dar voz a alguns candidatos é perigoso. Pode acontecer de candidato ser vitorioso em uma eleição democrática e no governo começar a apelar para a massa no sentido de modificar a Constituição para ter mais poder, como fez o Hugo Chávez na Venezuela'', advertiu.
Para Lepre, o momento propicia o início de um debate acerca da reforma do Estado e de medidas para reverter o inchaço das estruturas políticas. ''O Estado é o maior empregador do País e a sociedade, que sustenta o Estado, está afogada por esse gigante que não faz o papel dele. Quem produz e gera renda é a sociedade e não o Estado. Tem que se pensar em diminuir as estruturas políticas, não no sentido neoliberal, mas dar racionalidade ao Estado que tem um excesso de nomeações políticas que fazem com que os recursos se percam nas entranhas'', concluiu.

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