Severino renuncia e promete voltar
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quarta-feira, 21 de setembro de 2005
Folhapress 
Brasília - O deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) tornou-se ontem o primeiro presidente da Câmara a renunciar ao mandato e, por consequência, ao cargo. No final de seu discurso, ele disse que voltará e que será absolvido pelo povo. ''Todos seremos, muito breve, julgados pelo povo. Para quem dedicou sua vida à política, esse é o julgamento que conta, a sentença que importa. Voltarei. O povo me absolverá'', disse Severino, que ficou sete meses e seis dias no cargo.
A renúncia tem o objetivo de evitar a inelegibilidade até 2015 que uma possível cassação acarretaria. Severino promete se candidatar no ano que vem e retornar à Câmara em 2007. Para isso, citou a Bíblia: ''Voltarei. Já anunciava o profeta Jó: ''O júbilo dos ímpios é breve, e a alegria dos hipócritas, apenas um momento'''.
Acusado de receber ''mensalinho'' para prorrogar a concessão de um restaurante da Câmara, Severino negou a propina e disse que sai do Congresso da mesma maneira que chegou: endividado. No discurso, Severino fez menção a seu pai, afirmando que ele sustentava a família com dificuldades. ''Cresci no meio das durezas que são pobres, na terra onde as crianças desde cedo são sertanejos fortes'', declarou.
No discurso, Severino afirmou que uma ''elitizinha'' tentou derrubá-lo do cargo. Citando um deputado, Severino afirmou sobre si mesmo: ''A queda do presidente do baixo clero, lógico, é a vitória dessa elitizinha que fez tudo para derrubá-lo e ridicularizá-lo''.
O parlamentar também prometeu provar sua inocência e afirmou que seus acusadores ''não estão preocupados em apurar a verdade mas apenas em fazer sangrar a vítima diante dos clamores de sangue e de vingança''. Em uma referência ao empresário Sebastião Buani, que o acusou de receber propina e foi o pivô da crise, chamou-o (sem, no entanto, citar o nome) de ''um empresário, que precisava da mentira para encobrir as dívidas crescentes de seus restaurantes''.
Segundo ele, a renúncia foi sua única saída porque já sabia ser ''condenado de antemão. Minha culpabilidade foi declarada, sem apelação, antes das provas e mesmo, do processo e minha condenação veio antes de qualquer sentença: veio pela imprensa, veio pela voz de alguns poucos''.
Em uma retrospectiva dos meses que passou na presidência, o deputado afirmou que promoveu uma economia de R$ 120 milhões e a votação de leis ''de interesse da população'', que ''foram desengavetados''.
O final do discurso de renúncia foi marcado por tumulto e manifestações nas galerias da Casa. No plenário, no entanto, os parlamentares não se manifestaram da mesma forma que o ''discurso de despedida'' do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que foi aplaudido.
Severino foi recebido com frieza por parte de seus colegas. Nas galerias, uma mulher berrou ''fora, Severino'', em meio a ofensas ao presidente da Casa e aos demais parlamentares. Vários estudantes que estavam do outro lado da galeria começaram a se manifestar e a gritar: ''Sem mensalinho, sem mensalão. Solta o dinheiro para educação''.
Devido às manifestações, o primeiro vice-presidente da Casa, o deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL), assumiu os trabalhos e pediu o esvaziamento das galerias. A partir deste momento, começou um tumulto generalizado nas galerias, com troca de socos entre seguranças e manifestantes. A sessão foi interrompida por 15 minutos. Neste meio tempo, Severino deixou discretamente o plenário pela saída reservada somente a parlamentares, por trás da Mesa Diretora.


