Em reunião na tarde de sexta-feira no Palácio do Planalto, o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), propôs ao ministro José Dirceu (Casa Civil) uma trégua com o governo e uma reaproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Pela proposta, Severino voltaria a demonstrar boa vontade em relação à agenda legislativa de interesse do Palácio do Planalto. Até ontem, Lula vinha resistindo a uma recomposição com Severino. Dirceu, na prática, continua a ser procurado para articulações políticas, apesar de reservadamente dizer que prefere cuidar só do gerenciamento do governo.
O ministro vai trabalhar pela conciliação entre Severino e Lula.
Membros do PT pediram ajuda ao ministro Aldo Rebelo (Coordenação Política), que estava fora de Brasília ontem, para uma reaproximação com o governo.
Farpas - A relação Lula-Severino piorou muito na semana passada, quando Lula engavetou uma reforma ministerial ampla e não cedeu uma pasta ao PP.
Severino dera um ultimato a Lula, exigindo um ministério sob pena de rumar para a oposição. O petista não aceitou e decidiu engavetar a reforma que tinha entre os seus objetivos arrumar a base de apoio na Câmara.
Ontem, Severino disse a Dirceu estar disposto a não repetir o comportamento no episódio da MP (medida provisória) 232. Contrariado com Lula, ele retaliou ao incluir na pauta de votação a MP 232 num momento em que a base de sustentação do governo estava em frangalhos.
Assim, obrigou o governo a recuar, quinta-feira, editando uma nova MP para manter apenas a ''boa notícia'' da 232 (10% de correção da tabela do Imposto de Renda das Pessoas Físicas) e abandonando a ''má notícia'' (aumento de impostos das empresas prestadoras de serviço). Foi uma das maiores derrotas de Lula em 27 meses de governo.
Mais cargos - Feita a retaliação, Severino e a cúpula do PP querem se reaproximar para obter cargos federais, ainda que o partido não venha a receber mais um ministério. O PP, com 51 deputados federais, está preocupado em perder parlamentares para o PMDB, o PL e o PTB se não tiver mais cargos e emendas ao seu dispor.
O PL e o PTB, por exemplo, tiveram pedidos de nomeações para cargos atendidos nos últimos dias e, na batalha da MP 232, estiveram mais perto da orientação do governo do que o PP e o próprio partido de Lula, o PT.
Para Dirceu, interessa ao governo um acerto com o PP. Afinal, o presidente da Câmara tem um poder específico que pode complicar a vida dos governos.
Nos próximos dias, há outra batalha desfavorável ao governo anunciada no Congresso: a votação de uma emenda constitucional que aumenta o percentual de repasse da União aos municípios.
Em encontro com prefeitos, Severino prometeu votar a emenda. O governo, porém, quer debatê-la com a votação do resto da reforma tributária.

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