'Setor privado suborna o público'
Vladimir Goitia
Agência Estado
De São Paulo
A edição de abril da revista Update, da Câmara Americana de Comércio de São Paulo (Amcham), que começou a circular nesta semana, traz a corrupção como assunto de capa e aborda o tema de forma aberta. A corrupção tem duas faces, constata a revista, para reconhecer que se o problema existe no setor público é porque o setor privado exerce um ativo papel de corruptor. O setor público não corrompe o setor público; quem corrompe é o setor privado, afirma na reportagem o presidente da Amcham-SP, John Mein.
Embora admita grandes dificuldades, a Amcham acredita que existam algumas medidas para combater a corrupção e atenuá-la, transformando-a de epidemia em mera afecção esporádica. Cada vez mais gente, na vida pública e no setor privado, está convencida de que a questão deixou de ser apenas moral e se tornou estrutural, escreve a revista em seu editorial.
Mais um pré-requisito para enfrentar adequadamente o problema é conhecer o poder de fogo do inimigo e saber onde ele está, diz a reportagem. Para Mein, até agora não se pôde medir o Custo Brasil oculto, mas é possível que seja maior do que aquele dimensionado.
Isto mostra uma acomodação no terreno moral, mas é também reflexo de um sistema que enfatizou a centralização, o controle, a defesa da corporação, da burocracia, responde Mein. O presidente da Amcham acredita ainda que será necessário repensar algumas das amarras normativas e institucionais que encorajam a criação de dificuldades para vender facilidades.
O professor Marcos Fernandes da Silva, da Fundação Getúlio Vargas-SP, diz que a corrupção está ligada à evolução das instituições e deve ser estudada como fenômeno econômico. Trata-se de um fato econômico, uma atividade econômica que, tal qual o crime, tem custos para a sociedade.
Gerald Greene, conselheiro da Amcham, diz que o lado mais perverso da corrupção é que seu custo econômico é sempre absorvido pela parcela da população que tem menos poder e dinheiro. Se a corrupção acontece no governo, diz Greene, o cidadão não vai receber 100% de retorno do imposto que pagou. Se acontece na área privada, é o consumidor que vai pagar pelo dinheiro do suborno, que encarece o negócio.
Segundo a revista da Câmara Americana, várias entidades independentes, como a Transparência Brasil, começam a surgir para enfrentar a corrupção. Para o presidente dessa entidade, Eduardo Capobiano, é muito difícil implantar uma economia de mercado em um sistema sujeito à corrupção. Com ela, não se pode promover o desenvolvimento e diminuir a pobreza, explica.





