Marcos Negrini/Folha de Londrina




Fome e apelo a DeusServidores em greve fazem passeata em Goioerê (foto de cima) e Osana: funcionária há 11 anos, apela para que Deus toque o coração do prefeito para que ele pague os salários atrasados



O Sindicato dos Servidores Municipais de Goioerê (72 km a oeste de Campo Mourão) começou ontem a fazer um abaixo-assinado pela cidade pedindo a intervenção do Estado na prefeitura. A intenção é reunir pelo menos cinco mil assinaturas. O documento foi lançado durante manifestação realizada no centro da cidade por funcionários em greve. Durante o protesto, que durou cerca de duas horas, parte do comércio fechou as portas em apoio ao movimento.
O abaixo-assinado diz que a crise na prefeitura está prejudicando toda a cidade, uma vez que o comércio depende das compras dos servidores. O documento afirma também que existe ‘‘indícios de desvio de dinheiro público’’. Os servidores estão sem receber há três meses. A última folha de pagamento foi paga em junho. Além disso, os funcionários ainda não receberam quatro salários do ano passado. Cerca de 150 deles estão em greve desde o dia 22.
O presidente do Sindicato dos Servidores, Paulo Mendes, diz que a adesão só não é maior porque a prefeitura vem repassando o dinheiro dos convênios que a entidade mantém com supermercados da cidade. ‘‘Isso evita que a maioria esteja passando fome’’, explica. A maioria dos servidores, no entanto, está sem crédito no comércio e há casos de funcionários que já tiveram luz e água cortados por falta de pagamento.
Errou Desde que os salários começaram a atrasar, em julho, Okamoto está atrás de empréstimos para regularizar a situação. Ele esbarra na falta de capacidade de endividamento do município. O prefeito admite publicamente que errou ao gastar demais na recuperação da prefeitura no início do ano e se queixa na queda acentuada na arrecadação a partir de abril. Esta semana, ele apresentou relatório de todas as receitas e despesas da prefeitura durante o ano.
‘‘Sabemos centavo por centavo onde foi aplicado o dinheiro da prefeitura’’, ressalta. O relatório, no entanto, causou revolta entre os servidores. Eles acusam o prefeito de não ter priorizado o pagamento do funcionalismo. Desde que assumiu, ele conseguiu pagar apenas uma folha em atraso - a de setembro do ano passado. Nesse período, o município arrecadou R$ 6,6 milhões e gastou R$ 2,05 milhões com os servidores.
No início da semana, a prefeitura anunciou novas medidas para contenção de despesas. Elas atingiram o setor de saúde. Quatro postos de saúde da periferia foram fechados e nove dentistas e dois médicos foram demitidos. No início do ano, Okamoto já tinha extinguido várias secretarias e demitido 70 funcionários. Outros 130 devem ser demitidos se a prefeitura conseguir a anulação de um concurso público.
Durante manifestação dos servidores municipais de Goioerê, ontem de manhã, no centro da cidade, o momento mais marcante foi o depoimento da zeladora Osana Izalina de Jesus, 38, que trabalha na prefeitura há 11 anos. Ela chorou muito ao relatar que não tem mais como manter os dois filhos - um de 10 e outro de 13 anos. ‘‘Deus vai tocar no coração do seu Vicente e de todo mundo que está segurando nosso pagamento’’, disse emocionada.
Osana ganha R$ 207,00 por mês e tem R$ 1.449,00 de salários atrasados para receber - R$ 828,00 do ano passado e R$ 621,00 deste ano. Osana conta que está tendo que fazer trabalhos domésticos à noite para conseguir sobreviver. ‘‘Onde me chamam eu vou, mas está difícil arrumar serviço’’. Ela também recebe ajuda de moradores da cidade.

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