Em uma assembléia marcada pela até então inédita divisão entre sindicato e categoria, os grevistas da Prefeitura de Londrina decidiram ontem obedecer as últimas decisões judiciais, mas sem pôr fim à paralisação. A greve contra a defasagem salarial de 27,53% completa hoje 100 dias. Força-motriz no movimento deste ano - em 2005, foi a Educação -, a Saúde retornou totalmente esta semana, em função de liminar, com multa, expedida pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR).
Ao longo de quase duas horas de discussão e esclarecimentos, no caminhão de som posicionado em frente à prefeitura, diretores do Sindicato dos Servidores Municipais (Sindserv) chegaram a indicar como melhor opção a retomada total dos serviços, com a manutenção do estado de greve. A segunda alternativa, porém, teve ampla maioria entre os pouco mais de 100 funcionários presentes (cerca de 20 deles da Saúde): as determinações judiciais são cumpridas nas áreas citadas por elas, mas o restante permanece paralisado.
Se na assembléia de quinta passada o assunto foram as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), na de ontem estava em pauta a decisão da véspera, assinada pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Ademir Ribeiro Richter. No despacho que atendeu ação do Ministério Público (MP), o magistrado determinou a retomada dos serviços essenciais relacionados à Infância e Juventude, bem como a liberação do prédio central da Prefeitura. Com multas diárias a Prefeitura e sindicato, em caso de descumprimento, a decisão estabelecia ao Sindserv que autorizasse os grevistas a retornarem ao trabalho, de forma escalonada ou revezada.
A decisão de retornar por revezamento, sem afetar o resto da paralisação, acabou vencendo. Pouco antes, ao microfone, uma servidora da Educação reclamara da ''meia dúzia'' que sempre ia às assembléias. ''É hora de retornar, como a Saúde'', pediu, sem ser atendida.
Também sem sucesso, o presidente do Sindserv, Marcelo Urbaneja, destacou por mais de uma ocasião na assembléia o retorno da Saúde, ''maior parcela dos grevistas''. Depois, salientou que ''ficaram de 400 a 500 servidores paralisados''.
Em coletiva o dirigente informou serem ''cerca de 600'' os que se mantêm no movimento, mas minimizou a decisão da categoria: ''Não há um racha. Acreditamos na democracia, e o sindicato é submisso ao que a categoria decidir''.
Questionado se a manutenção da greve apenas com setores ainda não abrangidos por determinações judiciais a enfraquece, Urbaneja sinalizou: ''Em número de pessoas, enfraquece. A reivindicação, não''. Sobre os motivos para a desmobilização criticada entre a própria categoria, atribuiu o fato a ações pontuais do Executivo, como abonos e gratificações, e da própria Justiça.
Funcionária da Educação, Marina Silva de Souza acredita que a greve não perde força. Enildo Fontes, pedreiro da Secretaria de Obras, é da mesma opinião. Mas admite: não acredita em reposição salarial para este ano. ''Acredito na Justiça reverter a nosso favor'', resumiu. Colega de trabalho dele, José Moreira da mesma forma é cético quanto a repasse de inflação. ''Se oprefeito deu abono a alguns, deveria ter dado a todos. Não creio que ele fará isso agora, mas defendo que a gente permaneça unido para reivindicar'', disse.

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