Servidor da AL teria autorização para usar cartões das parentes
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
Catarina Scortecci<br>Equipe da Folha 
Curitiba - O servidor da Assembleia Legislativa (AL) do Paraná João Leal de Matos teria dito durante depoimento ontem ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) que tinha autorização das suas parentes para manter com ele os cartões bancários delas em sua própria residência. Membros do Gaeco começaram ontem a ouvir oito das dez pessoas presas no sábado, durante a chamada operação Ectoplasma I, que apura, entre outras coisas, desvio de dinheiro dos cofres da AL.
João teria ''emprestado'' à AL documentos pessoais de seis parentes seus: Jermina (irmã de João), Vanilda (sobrinha), Iara (esposa), Priscila (filha) Maria José (sogra) e Nair (cunhada). Todas elas foram presas no sábado pela manhã. Maria José e Nair foram liberadas na noite do mesmo dia, após terem afirmado ao Gaeco que recebiam R$ 150 por mês em troca do uso dos seus nomes. Naquele dia, as demais mulheres presas não quiseram colaborar com as investigações. Ontem, elas voltaram a ser questionadas pelo Gaeco, mas as oitivas não haviam terminado até o fechamento desta edição.
Os três ex-diretores da AL presos junto com a família de João, Abib Miguel (ex-diretor geral da AL), José Ary Nassiff (ex-diretor administrativo da AL) e Cláudio Marques da Silva (ex-diretor de pessoal da AL), também prestaram depoimento ontem. O procurador de Justiça Leonir Batisti, à frente da operação Ectoplasma I, disse em entrevista à imprensa no início da noite de ontem que Abib Miguel ''deixou de responder a maior parte das perguntas''. Já José Ary Nassiff se recusou a responder todas as perguntas do Gaeco.
''Abib Miguel não respondeu ao objeto principal, só respondeu às perguntas de caráter geral'', disse ele. Entre as informações prestadas por Abib Miguel, uma tentava justificar o seu patrimônio: ''Ele disse que sua fazenda em Goiás é muito boa e rentável. Ele planta soja lá'', disse Batisti. No sábado, além das prisões, o Gaeco cumpriu nove mandados de busca e apreensão, o que incluia o bloqueio de 73 veículos supostamente de propriedade de Abib Miguel. Também foram encontrados R$ 50 mil com o ex-diretor-geral da AL.
Já com Cláudio Marques da Silva foram encontrados R$ 400 mil. No sábado, o Gaeco informou que eram R$ 200 mil, mas um novo cálculo foi apresentado ontem à imprensa. Até o fechamento da edição, o depoimento do ex-diretor de pessoal ainda estava sendo colhido pela equipe do Gaeco.
Folha de pagamento
Em meio às oitivas de ontem, a associação dos servidores da AL teria entrado com uma medida no Judiciário para tentar impedir que o Ministério Público do Estado obtenha as folhas de pagamento de todos os servidores da Casa, referentes aos últimos dez anos. A entidade seria presidida por Abib Miguel, mas a Reportagem não conseguiu falar com nenhum representante dela.
O procurador de Justiça Leonir Batisti classificou a iniciativa da associação dos servidores da AL como ''bizonha''. ''O que é proibido é usar informações do tipo com finalidades não explicadas ou por mera curiosidade. Não é o caso. Nós estamos fazendo uma investigação e vamos manter o sigilo das informações. É uma atitude incoerente, fora de propósito'', criticou ele.
Sindicância interna
Ontem, a direção da AL também divulgou o resultado dos trabalhos da comissão de sindicância interna aberta para apurar irregularidades. O principal resultado é a abertura de um processo administrativo contra os três ex-diretores da Casa. Detalhes sobre o trabalho da comissão não foram divulgados. O deputado estadual Tadeu Veneri (PT) disse que ''estranhou'' o resultado, já que dois dos três ex-diretores já pediram exoneração dos quadros da Casa: ''A maior penalidade possível após o término de um processo administrativo é a exoneração'', disse o petista.


