O senador José Serra (PSDB-SP), que aceitou convite do presidente Fernando Henrique Cardoso para assumir o Ministério da Saúde, afirmou ontem, em São Paulo, que a pasta não deve ser submetida ao ‘‘interesse’’ de partidos políticos. ‘‘A saúde no Brasil é um problema excessivamente grave para ser objeto de disputa eleitoral ou de interesses entre partidos políticos. Estou certo de que nenhum partido vai prejudicar o setor para atender os seus próprios interesses. Essa é a perspectiva que eu acredito que vai prevalecer.’
A declaração foi uma resposta à posição do PFL, que, temendo os efeitos da indicação de Serra na sucessão presidencial em 2002, ameaça votar contra a prorrogação da CPMF (imposto do cheque). Na avaliação do partido, o senador transformará sua administração na Saúde em um trampolim para a disputa.
‘‘Não acredito que essa seja uma posição conjunta do PFL. Uma ou outra pessoa pode ter dito isso, mas não podemos subordinar o atendimento às pessoas doentes e aos carentes a interesses de natureza político-partidária. Tenho certeza de que o PFL não pensa assim.’
Elogiando seus dois antecessores, Adib Jatene e Carlos Albuquerque, Serra afirmou que aceitou o convite feito por FHC como uma ‘‘missão’’ e negou que tenha imposto condições para assumir o cargo. ‘‘Para mim, a Saúde é uma missão e não algo a mais em minha vida pública. Só aceitei porque é um dos principais problemas que o país tem. Vou dedicar todo o meu esforço e a minha vida para melhorar as condições da saúde no país’’, afirmou.
O senador, que já havia recusado um convite para assumir o mesmo ministério em 96, negou-se a falar sobre temas específicos da área e fez questão de repetir inúmeras vezes que sua gestão será guiada pelo presidente da República. Serra desconversou sobre a possibilidade de prorrogação da CPMF -que perde a validade em janeiro de 1999. ‘‘Vamos trabalhar em torno do tema intensa e muito rapidamente. Mas, evidentemente, o problema da saúde no Brasil não é só dinheiro. Há problemas de gestão, de filosofia, de desperdício, mas também problemas de recursos. Portanto, tudo deve ser levado em consideração.’
Bem-humorado, o senador afirmou ainda que ‘‘sentiu grande interesse’’ por parte de políticos e profissionais da área da Saúde para que assumisse a pasta. Serra disse que se afastará da cidade nos próximos dias para poder ‘‘pensar adequadamente’’ a respeito de sua nova função.
A cobrança de um imposto para financiar gastos com a saúde a partir do próximo ano divide o PMDB - terceiro maior partido do Congresso e da base parlamentar do Planalto. O líder do partido na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), prevê dificuldades para o futuro ministro José Serra, que só contará com a CPMF (imposto sobre cheques) por mais nove meses.
‘‘Não há nenhuma possibilidade de prorrogação da CPMF ou de outro imposto. Não temos compromisso com isso. Vamos aprovar as reformas e o governo terá de administrar o orçamento que tem, sem novos artificialismos’’, afirmou Vieira Lima, expoente da ala governista do PMDB.
Mesmo que os demais partidos da base governista concordassem em aprovar o imposto, a resistência do PMDB tornaria a proposta inviável. Como depende de emenda constitucional, a cobrança precisará do apoio de três quintos do Congresso: 308 deputados e 49 senadores, o que só é possível com o apoio maciço dos aliados.

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