Ser ou não ser?
Quantos de nós, de vez em quando, por nossas contradições, lembramos a cena de Hamlet, o príncipe de Elsinor, caveira de Yurik à mão, a declamar o ''to be or not to be''? Pois o nosso governador arrumou um jeito de ficar dividido com essa idéia de acumular a função de Secretário de Segurança. Anteontem deu para percebê-lo no momento em que ordenou a Polícia Militar para que não interviesse no bloqueio de uma praça de pedágio em Cascavel.
Se fosse uma decisão judicial, que tivesse determinado o desbloqueio, poderia o governador impedir o seu cumprimento sem afrontar a lei? Na primeira gestão, por discordar de ordens de imissão de posse em invasões de terra, o Paraná sofreu com a Intervenção Federal decretada pelo STJ no caso da Fazenda Can Can. Tivemos ainda um outro episódio - o da invasão da Ferrovila na Capital e para atingir um projeto de condomínios de classe média tocado pelo Bamerindus - no qual a PM nem se mexeu para impedir a violência que era feita contra o governo municipal gerido por Lerner.
Esse pendularismo da autoridade, oscilando entre a vontade política e as imposições institucionais, ocorre com frequência em todos os níveis de governo e testa, no momento, o próprio Lula, às voltas com a liminar que desbloqueou o ICMS do Rio de Janeiro. Nunca um governante entrou, na história do Paraná, tantas vezes em atrito aberto com o Judiciário como Requião ao ponto de levar a magistratura ao radicalismo de uma greve, aliás absolutamente irracional, e a um insosso pedido de ''impeachment'' pela Associação dos Magistrados. Há hoje um bom sinal na disposição dos magistrados, através do juiz Roberto Bacellar, de cooperação com o Executivo na anunciada disposição de fazer aqui um decalque do ''Mãos Limpas'' da Itália no combate ao crime organizado, o que ajudaria, e muito, no desmantelamento da ''banda podre'' da polícia.
No incidente de Cascavel a causa imediata do bloqueio foi o fato de a empresa concessionária haver destruído uma via alternativa que favorecia lavradores e que acabou restabelecida. Se a empresa tiver bom senso desiste de sustentar esse foco de atrito pelo menos enquanto o Judiciário não entra no mérito da questão principal que dentro em pouco será colocada: a validade integral dos termos contratuais. Caso contrário, alimentará a campanha psicossocial, que tem fundamentos óbvios, contra o pedágio e que favorecerá o governador, já que é francamente apoiada pela esmagadora maioria da população.
AUTOFAGIA 1 O ex-deputado federal Hélio Duque na Constituinte era candidato a líder do PMDB na Câmara Baixa. Iria enfrentar Luís Henrique, hoje no governo de Santa Catarina e então integrante do ''clube do poire'' de Ulysses Guimarães. Ao fazer um levantamento na bancada de 24 integrantes percebeu que só teria nove votos, razão pela qual desistiu de concorrer. É um exemplo a mais de nossa autofagia e visão autárquica e que explicam, além de outros fatores, o nosso desprestígio.
AUTOFAGIA 2 A despeito do seu elevado prestígio na cúpula nacional, José Richa não moveu uma palha para que não passasse a emenda de José Serra que impede o Paraná de ser beneficiado, em termos fiscais, pela produção de energia. Serra disse, meio desenxavido, na campanha eleitoral, como quem faz ''mea culpa'', que aquele dispositivo era um absurdo. Prova, aliás, da nossa imaturidade para uma economia verdadeira de mercado. Se o maior Estado brasileiro vale-se de um subterfúgio desses, claramente cartorial, para ser beneficiado como consumidor é prova de que estamos longe de uma ordem competitiva. A bancada paranaense dormiu de toca e muitos dos seus integrantes ficaram com razões até afetivas e de conveniência partidária e não tiveram visão logística do caso.
PEDAGOGIA O atacante Jabá, apanhado em flagrante na madruga (já tinha aquele antecedente da batida do carro também fora do expediente), foi dispensado pelo Coritiba. O Zé Roberto, dos anos 70, fazia isso dezenas de vezes e ninguém o punia. O talento dá mais indulgências plenárias do que o bom comportamento.





