Senti que comemoraria a vitória com a cirurgia
Folha - Como está a saúde do prefeito eleito de Londrina?
Belinati - O que eu vejo é que há um pega-pega entre a vida e a morte, assim como uma verdadeira corrida, e a gente sabe que no final é a morte que acaba ultrapassando. Mas quem tem Cristo como único senhor e salvador tem sempre assegurado um lugar no pódium celestial. Então eu encaro o problema de saúde com muita naturalidade, vendo que nenhum de nós tem certeza de que estará vivo no próximo segundo. O que eu tenho feito é tratamento regular, infelizmente pagando um preço caro por não cumprir a recomendação médica de não tomar sol em hipótese alguma. Em toda campanha, quando chega o momento em que o sol está mais castigando é a hora que você tem também o pique de compromissos. Então eu senti durante a campanha de agora, como senti em 1988, que eu comemoraria a vitória com a cirurgia. E não deu outra. Foi um replay, porque acabei abusando. Tomei sol e isto fez voltar o problema que eu tinha.
Folha - Em 1988 o senhor acabou viajando aos EUA para uma cirurgia, não foi?
Belinati - Dois dias depois da minha vitória em 1988 eu estava sendo examinado em São Paulo e em seguida fui aos Estados Unidos. Só eu sabia, eu não comentava com o pessoal, mas estava vendo que talvez não desse nem para terminar a campanha e tivesse que fazer uma cirurgia no curso da campanha. Consegui, com muita firmeza, chegar ao final da campanha. Firmeza no sentido de passar tranquilidade para o pessoal. Agora estou fazendo aquilo que toda pessoa tem que fazer: estou procurando recursos da medicina. Nós temos que orar muito a Deus e temos que fazer a nossa parte, buscando o instrumento que Deus colocou a serviço da humanidade, que é o médico.
Folha - Mas o problema foi identificado antes de 1988.
Belinati - É bem mais antigo. Na verdade o problema que eu tenho muita gente tem e nem sabe. Às vezes a pessoa tem uma pinta, uma verruga, acha que não é nada e quando vai fazer um exame às vezes é surpreendido por se tratar de uma lesão de certa gravidade. No Brasil a nossa cultura obriga o médico a enganar para confortar o paciente. Quase sempre até esta palavra muda de nome. O sujeito diz que é um carcinoma: O meu não é câncer, não, é um carcinoma, ou O meu é só um câncer de pele. Câncer é câncer. O que ocorre é que, em se tratando de um câncer que te pegue na pele, eu aprendi que do ombro para cima você tem mais possibilidades de ter uma sobrevida longa, desde que você faça o que eu tenho feito. Então eu estou aí há 20 anos fazendo o meu tratamento.
Folha - Passando a falar sobre administração municipal, lhe preocupa a situação financeira da Prefeitura de Londrina?
Belinati - Preocupa. A situação da Prefeitura de Londrina é extremanente delicada, porque o atual prefeito de Londrina vendeu as ações da Sanepar, vendeu as ações da Copel, contraiu um grande empréstimo do Sercomtel, há fornecedores da prefeitura com pagamentos em atraso bastante prolongado. Estou na vida pública há 28 anos e vou assumir bastante cauteloso, muito consciente de que me espera pela frente um desafio, possivelmente o maior desafio de minha vida, diante do quadro atual da prefeitura, em que há dificuldade de pagar até a folha de pessoal. Nós vamos ter que entrar em Londrina já sabendo que algumas pessoas vão nos olhar de cara feia, porque a nossa arrancada nessa nova administração é uma corrida de muita contenção, de muita economia. Realmente não estamos esperando aplausos de alguns setores desta cidade, porque vai ser um momento muito delicado. É uma experiência nova que eu vou viver como prefeito de Londrina.
Folha - Há funcionários demais em Londrina? No encontro dos prefeitos eleitos em Faxinal do Céu, promovido pelo governo do Estado, alguns prefeitos pediram auxílio para elaborar programas de demissão volutária. O senhor pensa em algo parecido para o município?
Belinati - Só posso fazer esta afirmação depois de assumir o cargo de prefeito, pois só aí vou ter um relatório detalhado da situação. O que tenho lido nos jornais é que, faltando poucos dias para minha posse, a prefeitura continua nomeando mais funcionários em caráter efetivo. Tendo funcionário demais, quase nada o novo prefeito poderá fazer, por que se são funcionários que estão entrando através de concurso, você só pode demitir aqueles que tenham cometido falta grave e através de processo administrativo.
Folha - O prefeito eleito de Campinas, Chico Amaral (PPB), vai adotar um gerente para cuidar do dia-a-dia da administração, liberando-se para a coordenação política, viajar para obter empréstimos etc. O que o senhor acha da idéia?
Belinati - A maior dificuldade está em achar uma pessoa que tenha todos estes requisitos. No outro mandato de prefeito procurei muito por uma figura que pudesse ser este gestor. Por esta idéia do Chico Amaral eu confesso que tenho adoração. Desejo muito encontrar alguém com este perfil para a Prefeitura de Londrina. Estou analisando o perfil de várias pessoas que possam cumprir este papel do gerente. Ou seja, ele cuida da parte interna da prefeitura e o prefeito vai atrás do empresário, dos secretários de Estado, dos ministros, do Banco Mundial, do BID, vai fazer a política maior de Londrina, com a tranquilidade de ter alguém gerenciando toda a máquina da prefeitura. Mas tem que analisar muito o perfil desta pessoa. Não é só colocar por colocar, dizendo: Você é meu amigo e vai ser o gerente, o que vai mandar em tudo aqui. Ele pode afundar a prefeitura e afundar também a carreira política do prefeito.





