BRASÍLIA - Os senadores do PMDB estão orientando suas bancadas de deputados a não votar no atual líder e candidato à presidência da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), como resposta por ele ter apoiado o governo na votação da emenda da reeleição. ‘‘Ele foi um fraco e causou toda essa confusão’’, disse o líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), numa tensa reunião dos rebeldes, na segunda-feira à noite. ‘‘Rifar’’ Temer foi a única decisão concreta da reunião, no apartamento funcional do prefeito de Contagem (MG), Newton Cardoso, em Brasília. O resto foi uma demonstração de perplexidade, diante da força do governo no aliciamento de votos.
A perplexidade aumentou ontem quando Jáder Barbalho foi chamado para uma conversa a sós com o presidente FHC, a terceira desde o início da crise, há 17 dias. O presidente disse que não podia concordar com a proposta feita pelo partido, de adiar a votação para o dia 5 de fevereiro. Mas afirmou que apoiava, pessoalmente, as reivindicações de submeter a emenda a referendo, impor a fidelidade partidária e criar um prazo de desincompatibilização para os candidatos.

Sarney nega
que tenha tido
encontro secreto
com Cardoso


‘‘Ele aceita, mas diz que nem toda a sua base é a favor, mas me parece claro que ele não quer a destruição do partido’’, concluiu Jáder, ao relatar a conversa ao grupo de senadores, mais tarde, em seu gabinete. No encontro da tarde, no entanto, não estava o ex-presidente José Sarney (AP), que durante toda a crise estimulou os colegas. Sarney nega ter tido um encontro secreto com FHC, como chegou a ser divulgado na última sexta-feira, mas desde então passou a encarar o movimento com pessimismo.
‘‘Se ele diz que não houve encontro, tenho de acreditar’’, afirmou Ronaldo Cunha Lima (PMDB-PB). ‘‘O presidente Fernando Henrique conseguiu plantar a semente da suspeita entre nós, com muita competência’’, admite outro senador. Também foi estranho o comportamento da governadora Roseana Sarney, filha do ex-presidente. Enquanto o pai se lamentava na casa do prefeito Newton Cardoso ela jantava com o presidente e outros 11 governadores no Alvorada, para contar votos. ‘‘A nós ela garantiu que os votos do Maranhão vão vir’’, narrou o governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB). ‘‘Aliás, todos os rebeldes do PMDB querem se compor com o governo, menos o Íris Rezende, que será o único ponto de resistência porque é candidato à presidência do Senado.’’
Durante o jantar de segunda-feira Newton Cardoso recebeu um telefonema do ministro das Comunicações, Sergio Motta. Ele propôs um acordo, com base num compromisso do governo de apoiar uma ampla reforma política, incluindo as exigências do PMDB. ‘‘Os senadores foram muito intransigentes e não aceitaram’’, lamentou o prefeito, dando a entender que ele mesmo tinha capitulado. ‘‘Você vai se fiar em promessa, Newton?’’, cobrou o deputado João Almeida (PMDB-BA). ‘‘Vou me fiar em quê?’’, devolveu o prefeito numa tensa conversa ontem de manhã.
Além disso, os senadores acabaram arquivando a idéia de divulgar uma nota, redigida pelo próprio José Sarney no jantar. A nota, que seria usada para justificar a obstrução da bancada, dizia que ‘‘lamentavelmente, o governo não deixara alternativa ao PMDB, que não votar em bloco contra a emenda da reeleição’’. Mesmo tendo redigido o texto, o ex-presidente sugeriu que ele fosse divulgado por Cunha Lima, o que não ocorreu.

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