O depoimento do senador Antonio Carlos Magalhães não conseguiu reverter sua delicada situação. Logo depois das primeiras horas de sua exposição ontem, no Conselho de Ética do Senado, era unânime a constatação no governo e no Congresso: o processo de cassação por quebra de decoro não foi descartado, como acreditavam os políticos ligados a ACM. Sem trazer nenhum fato novo que pudesse mudar o seu destino, o depoimento de ACM acabou decepcionando até mesmo os integrantes do PFL. No Palácio do Planalto, um interlocutor do presidente sentenciou: ‘‘ACM não convenceu sobre sua inocência.’’
Com um depoimento classificado de ‘‘morno’’ por um ministro, a análise feita no governo é de que o destino de ACM dependerá da repercussão do seu desempenho na imprensa e junto à opinião pública, além da exposição do ex-líder do governo no Senado José Roberto Arruda marcada para hoje de manhã.
O presidente Fernando Henrique assistiu à leitura inicial do depoimento de ACM, no Palácio da Alvorada, ao lado dos ministros Pimenta da Veiga (Comunicações), Pedro Parente (Casa Civil), Aloysio Nunes Ferreira (Secretaria Geral) e do líder do governo na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).
Segundo um dos presentes, em três pontos o senador ACM falhou gravemente na sessão do Conselho de Ética: 1) Não conseguiu explicar ou convencer sobre o motivo que o levou a ligar para a ex-diretora do Prodasen Regina Borges, logo depois de receber a lista; 2) Por que não tomou providência e não fez qualquer advertência ou repreendeu o senador Arruda e Regina depois de receber a lista e 3) Por qual razão a lista foi parar em suas mãos.
Apesar da delicada situação, o Planalto avalia que ACM conseguiu demonstrar uma certa tranquilidade. Considerado um homem ligado ao sistema, observou um ministro, ACM conseguiu inibir boa parte dos senadores que o interrogaram.‘‘Mesmo assim, ele foi evasivo em várias respostas’’, constatou esse ministro.
No PSDB, o depoimento de ACM foi comemorado. Dois momentos considerados críticos pelos tucanos, foram atribuídos aos senadores do partido. Na intervenção feita por Osmar Dias (PSDB-PR), o cacique baiano não conseguiu convencer com a versão de que rasgou a lista com os votos dos senadores na sessão que cassou Luiz Estevão em junho do ano passado. Já a intervenção de Antero Paes de Barros (PSDB-MT), observaram os tucanos, foi um dos poucos momentos nos quais ACM perdeu a serenidade.
A posição do PSDB na sessão do Conselho foi interpretada no PFL como um atestado de que os tucanos não só abandonaram Arruda, mas que também deram demonstrações de que estão dispostos a cassar ACM. A cúpula do PMDB fez uma avaliação ainda mais dura do depoimento, classificando-o de ‘‘sofrível’’.
No Senado, a análise de senadores de todos os partidos é a de que, tanto a situação de ACM como a de Arruda já foram cristalizadas. ‘‘O problema é que são muitas mentiras e muitas meias-verdades’’, lamentou Paulo Hartung (PPS-ES).
Um político carlista observava no início da noite que todas as intervenções feitas pelos senadores, com exceção dos pefelistas, foram prejudiciais ao depoimento de ACM. Da senadora Heloísa Helena (PT-AL) ao senador Pedro Simon (PMDB-RS), lembrou esse carlista, todos as intervenções foram críticas. ‘‘ACM está sendo julgado não só pelo episódio, mas também pelo seu difícil relacionamento com seus colegas de Senado durante os últimos seis anos’’, resumiu um cacique pefelista.
O senador José Roberto Arruda descartou ontem que vá renunciar e disse, por meio de sua assessoria, que vai manter sua última versão sobre o caso, acrescentando detalhes. Depois do depoimento de ACM, Arruda concluiu que, se renunciar agora, estará assumindo sozinho a responsabilidade pela violação do painel e livrando ACM. Arruda assistiu ao depoimento de ACM em companhia dos seus advogados, fora do Senado. Ele depõe hoje a partir das 9 horas. Basicamente, Arruda vai insistir que sua atuação no episódio da violação do painel ocorreu por incumbência de ACM.

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