Curitiba - A imagem do Senado sai manchada com a absolvição do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista. Essa é a opinião dos cientistas políticos ouvidos ontem pela FOLHA após o resultado da votação do processo de cassação do peemedebista.
Para o professor do Centro Universitário Positivo (UnicenP), Alexsandro Pereira, mestre e doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP), a instituição Senado sai perdendo. ''A imagem fica prejudicada. Foi um processo de muita visibilidade, tendo em vista todo o processo de investigação'', observou.
Na opinião do professor, a sessão secreta - apesar de prevista no Regimento da Casa - não seria recomendável nesse caso, justamente pela exposição do assunto na mídia.
''É fundamental que as pessoas confiem nas instituições. Essa absolvição gera descrédito e assim o Senado se enfraquece perante a opinião pública'', analisou Pereira. O professor comentou ainda que essa decisão deve ter reflexos nas próximas eleições, mas isso não pode ser mensurado agora, completou ele.
Avaliação semelhante fez Carlos Magno Bittencourt, professor de Ciências Políticas e Econômicas da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná. Para Bittencourt, os senadores deveriam ter seguido a mesma linha ética do Supremo Tribunal Federal (STF), que recentemente transformou em réus os envolvidos no escândalo do mensalão. ''Eles (senadores) deveriam estar comprometidos com o povo brasileiro, eles devem respeito a quem os elegeu'', declarou. ''Essa decisão mostra o corporativismo do Senado. Um não quer julgar o outro'', afirmou. ''Ficamos decepcionados. Eles não estão acima da lei'', completou.
Bittencourt observou ainda que as seis abstenções poderiam ter mudado o placar da votação - 40 a 35. ''É uma frustração'', disse.
O professor Cezar Bueno, da PUC Londrina e Unifil, disse que mais uma vez houve uma espécie de traição dos representados por parte dos representantes eleitos. Para Bueno, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, este seria o momento de discutir o sistema de representação atual. Ao invés das duas casas legislativas - Câmara dos Deputados e Senado -, poderia haver apenas a Câmara, por exemplo. Na opinião dele, não haveria prejuízo para o sistema de representação, além da economia de dinheiro público na manutenção dos parlamentares. São 513 deputados e 81 senadores.
Na análise dos cientistas políticos, o governo Lula (PT) não deve sair muito desgastado com a absolvição do aliado Renan Calheiros. Bueno disse que o resultado da votação deve interferir pouco na credibilidade e prestígio do governo Lula, pois a economia é mais importante na avaliação do brasileiro do que o sistema de representação.
Já Bittencourt afirmou que o governo federal não deve sair comprometido porque, pelo menos oficialmente, não estaria protegendo o peemedebista. Pereira entende que o governo já havia conseguido isolar o problema e um eventual desgaste vai depender do comportamento da bancada de oposição daqui por diante.

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