Senado é desafio para o governo
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sábado, 15 de maio de 2004
Christiane Samarco<br> Agência Estado 
Brasília - O Palácio do Planalto vai investir em várias frentes para melhorar seu relacionamento político com o Senado. Além de articular um time de governadores capaz de ajudá-lo nas votações de seu interesse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está sendo aconselhado a entrar no corpo-a-corpo com os senadores. No momento, segundo levantamento entregue a Lula pelos ministros da Casa Civil, José Dirceu, e da Coordenação Política, Aldo Rebelo, há 36 senadores, de um total de 81, dispostos a assinar qualquer proposta que contrarie interesses do governo.
O pior é que, nas contas do líder do governo, Aloizio Mercadante (PT-SP), o presidente não pode contar com todos os 45 senadores restantes número que já está abaixo dos 49 necessários à aprovação de uma emenda constitucional. ''Nossa maioria é precária e chega a no máximo 41 ou 42 senadores'', admite Mercadante. Esse quadro levou o senador petista a pedir ao presidente que, de volta da viagem oficial à China para onde embarcará na quinta-feira dedique pelo menos uma hora por semana para receber senadores. Também sugeriu que os ministros despachem semanalmente no Congresso.
Acionados pelo próprio presidente, os governadores do Acre, Jorge Viana (PT), do Espírito Santo, Paulo Hartung (PSB), e até o tucano do Ceará, Lúcio Alcântara, ajudam nos preparativos para um novo encontro dos governadores com Lula. ''A articulação de governadores neste momento de dificuldade política é uma boa saída para ajudar o governo a se fortalecer'', diz Alcântara. ''Mas o governo terá de atender alguma reivindicação dos Estados, ou a conversa ficará ainda mais difícil.''
''Mobilizar os governadores ajuda, mas não vai resolver o problema, porque nada substitui o contato do presidente com os senadores'', insiste Mercadante. Para ele, nem sempre a bancada reflete a posição do governador e também não são raros os casos em que o governador e o senador são adversários ou concorrentes. ''Cada senador é uma instituição'', diz ele. Atualmente, até os governistas mais convictos se queixam de que não são chamados a opinar sobre nada.
Ainda segundo Mercadante, os aliados querem pertencer ao projeto do governo, mas fazem questão de que suas reflexões sejam consideradas: ''A grande maioria é de ex-governadores e ex-ministros que têm espírito público e desejam colaborar.''
''O Senado é uma casa de homens experientes, de políticos de fácil diálogo'', diz o senador Edison Lobão (PFL-MA). ''O problema é que, lamentavelmente, o presidente não tem o gosto por essa conversa e não chama ninguém para dialogar.''
Presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por onde passa todo projeto que tramita no Congresso, Lobão já deu demonstrações de boa vontade com o Planalto, como na escolha de um relator do PT para a proposta de reforma da Previdência. ''Bastaria que eu não quisesse ajudar e a reforma previdenciária estaria aí tramitando até hoje'', salienta o pefelista. E acrescenta: ''E nem assim mereci um gesto, um telefonema do presidente Lula.''
Até parlamentares petistas se queixam de que eram mais ouvidos pelo governo Fernando Henrique Cardoso. ''Como posso ter estímulo para ajudar um governo que vai mal a pior e ainda é incapaz de um gesto de agradecimento?'', indaga Lobão. ''Ele tem razão'', diz Mercadante, ao reconhecer que ''o senador tem prestado serviços ao governo e ao País''.
Vice de Mercadante na liderança governista, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) é outro que adverte que é necessário agir, e rápido, para melhorar a relação com o Senado. ''O governo precisa ter reconhecimento político; receber e ouvir mais os senadores; atender os pleitos na reciprocidade ao apoio recebido e sobretudo parar de criar crise artificial e tumultuar mais nosso trabalho'', reclama Jucá, desconsolado com o prejuízo causado pelo episódio da expulsão frustrada do jornalista norte-americano que descreveu o presidente como um alcoólatra. ''A administração do dia-a-dia da política já é bastante difícil para se criar tumulto''.


