"Sempre ganhamos da turma raivosa" - Entrevista Gov. Jaime Lerner
Com a possibilidade da reeleição, os Estados começaram a conviver com uma nova realidade política. Como a maioria dos outros governadores, Jaime Lerner (PFL) já está em campanha para tentar ficar mais quatro anos no cargo. Ele foi um dos poucos governadores que se posicionaram contra o projeto da reeleição quando o tema era discutido pelo Congresso. Prefeito de Curitiba por três gestões, Lerner já passou pela antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena), esteve também no PDT e, ao lado do ex-governador Leonel Brizola, ajudou na redemocratização do País. Hoje, está no PFL, partido comandado pelo senador baiano Antônio Carlos Magalhães e pelo vice-presidente da República Marco Maciel. Nascido em
Curitiba, Lerner é, como arquiteto urbanista, um dos responsáveis pelas mudanças nos conceitos existentes sobre as cidades e pela nova visão entre o urbano e o meio-ambiente. E é dele a tese de que o futuro dos países depende da visão que se tem das cidades. Eu sempre fui uma pessoa com propostas novas, diz Lerner, ao definir-se como um transformador. Candidato à reeleição, chama seus adversários de turma raivosa. O governador recebeu a reportagem da Folha na última semana em Cornélio Procópio para a entrevista que se segue, na qual acena com a possibilidade de redução no preço do pedágio, tema polêmico que deve dominar boa parte da campanha eleitoral.
Sempre ganhamos da turma raivosa
João Arruda
e José Fernando da Silva
Folha - Com a possibilidade de reeleição e o rigor da Lei Eleitoral, como o sr. pretende diferenciar um ato de governo de uma ação de campanha?
Jaime Lerner - Eu sei diferenciar o que é um ato de governo e um ato de campanha. Pois eu fui na inauguração da Chrysler. Não era obra pública, poderia perfeitamente ter falado. Achei conveniente não falar. Mas a lei me permitia. Acho que não preciso discursar para demonstrar a importância de uma Chrysler para o Paraná. As pessoas exageram dando muita importância aos comícios. Acho que posso fazer uma campanha mostrando as obras. Não há município que não tenha obra do governo do Estado. Sei perfeitamente diferenciar o comportamento ético: a postura ética como governador e como candidato.
Folha - Temos quatro candidatos ao governo do Estado, com fortes tendências de polarização entre o sr. e Roberto Requião (PMDB). É possível uma vitória no primeiro turno?
Lerner - Vai acontecer uma vitória no primeiro turno, obviamente, porque a polarização leva a isso. Se eu não acreditasse em vitória não era candidato. Eu tenho a certeza da vitória no que eu sinto do povo do Paraná e nas demonstrações que o povo tem dado no sentido de entender às transformações que ocorreram no nosso Estado.
Folha - O sr. acredita que todos podem se beneficiar do processo de industrialização do Estado?
Lerner - Todo mundo sabe o que representa a mudança econômica em nosso Estado. A palavra industrialização não é tão vaga assim. O povo sabe que atrás deste processo de industrialização existe a esperança do emprego. Existe a realidade que não é só um emprego em cada fábrica, mas no fornecedor, nos empregos indiretos. No fundo, o povo sabe e vai saber cada vez mais que o emprego em cada supermercado ou na construção civil é decorrente da indústria que está se instalando na região. Cada emprego tem um pouco das indústrias que se instalam no Paraná. Procuraram colocar na cabeça do povo a seguinte situação: Mas eu não sou um operário qualificado, então eu não vou me beneficiar destas novas indústrias, só estes garotos novos. Veja como teve bastante mentira neste processo, nesta discussão. Mais de 95% dos empregos nestas indústrias são dos paranaenses.
Folha - Seu principal adversário disse em entrevista à Folha que, se eleito, vai rever os contratos com as montadoras e outras indústrias que se instalarem no Paraná. Todas teriam que pagar normalmente os impostos. Isto é possível?
Lerner - Ele sabe que não pode fazer isso. Essas são colocações inerentes à leviandade que meu adversário trata todas as coisas do nosso Estado. As marcas da intervenção dele como homem público sempre têm sido a da leviandade e da fraude eleitoral. Eu não vou perder tempo atacando a ele. Eu procuro concentrar energia em transformar as coisas. Eu sempre costumo dizer que este adversário é uma pessoa que não consegue ser engraçada, porque é sarcástico demais e por isso não consegue ser levado a sério também. É um homem que tem uma obsessão pela destruição. Eu procuro concentrar minhas energias na construção das coisas. Quem não faz, critica. Eu não posso esperar flores de um adversário.
Folha - O sr. tem conhecimento do estudo feito durante o Governo Requião para a implantação do pedágio? Como avalia esse estudo?
Lerner - Tenho. Foi feito no governo dele. Este estudo existe, tem parecer da Procuradoria. Havia intenção de implantar o pedágio e o mais grave, em estradas estaduais. Nós fizemos 5 mil quilômetros de estradas estaduais e municipais e nem pensamos no pedágio. Nós só recorremos ao pedágio porque não havia alternativa. Nós iríamos perder estas estradas. Quando nós anunciamos que íriamos fazer duplicações no Anel de Integração, diziam que isto era ficção, que era virtual este Anel. Hoje é realidade. Todos concordavam em pagar um pedágio oculto, com maior consumo de combustível, de peças, de pneus, com maior consumo de tempo nos percursos. Alguém pagava isso. Nós pagávamos. E o que se perdia nas safras, de 10% a 20%? Sem falar nas vidas, mais de 100 por mês. Isso ninguém fala, porque no fundo eram responsáveis. Tem uma capela ali em Mauá da Serra. Alguém levantou aquela capela na beira da estrada para prestar uma homenagem às 350 pessoas que já morreram naquele ponto. Quem paga por essas vidas? Pois bem, nós resolvemos encarar este problema de frente. Em dois anos nós iríamos perder estas estradas. Não só as estradas, mas a oportunidade de industrializar o Estado inteiro. Como é que você vai realizar investimentos de R$ 4 bilhões se este dinheiro não existe no país? A única maneira foi viabilizar pela iniciativa privada, através do pedágio.
Folha - O sr. pretende rever os preços do pedágio?
Lerner - O povo do Paraná não questiona mais o pedágio, questiona o preço. Agora começa a relação normal entre concessionária e usuário. Esta relação vai levar mais à defesa do interesse dos usuários e o governo do Estado vai atuar neste sentido. A partir de agora, começa a nova fase de implantação do Anel de Integração. A concessionária vai ver que presta um serviço e se ela quiser ter mais usuários, mais renda, vai ter que pensar como tornar os serviços mais acessíveis. Nesta relação que vai se estabelecer, tenho certeza que o beneficiado será o consumidor, este é o princípio ético da coisa. O papel do governo é atuar no sentido do interesse público, sempre.
Folha - Mas, nesta nova relação concessionária-usuário, pode efetivamente haver redução no preço do pedágio?
Lerner - Pode. Pode dependendo de como se faz esta equação. Sempre vai haver intervenção do governo. O governo é um mediador que atua na defesa do interesse público. Eles vão ter que entender se há injustiças. São tantos os problemas que só quando você implanta é que começa a ver. Nós estamos atentos e o povo sabe que nós estamos atentos. Pode acontecer, por exemplo, que as empresas ofereçam horários mais vantajosos aos usuários.
Folha - O sr. não teme que a cobrança de pedágio possa influir na campanha, no voto do eleitor paranaense? A oposição vai usar ainda mais este fato para atacá-lo.
Lerner - Sempre usou, mas há cinco eleições que nós ganhamos desta turma raivosa. O ex-governador, a quem eu substituí, tratava mal até os prefeitos de seu partido. Ele agredia, tratava-os jocosamente, não tinha respeito com quem tinha a responsabilidade de ser prefeito de uma cidade. Pois bem, hoje todos os prefeitos têm entrada no Palácio. Nunca perguntei o partido. Muita gente pensa será que o Lerner tem cara de otário ao estar beneficiando adversários políticos? Eu prefiro ganhar um município pelo respeito do que pela pressão. Pelo jeito, as coisas não têm dado muito errado, porque as últimas cinco eleições nós ganhamos em cima desta turma raivosa. Eu não tenho receio do questionamento. Nunca tive. Se eu tivesse receio do questionamento eu jamais seria um transformador.
Folha - Por que o governo não deixou a implantação do pedágio para depois das eleições?
Lerner - Não se engana o povo. O povo saberia que depois das eleições viria a cobrança do pedágio. Seria muito mais honesto colocar aquilo que vai acontecer.
Folha - No processo de escolha do candidato a vice na sua chapa, que acabou por definir a atual vice Emília Belinati (PTB), o ex-governador Paulo Pimentel (PFL), preterido, saiu chateado com o sr...
Lerner - Estou falando de pessoas por quem eu tenho respeito e uma relação de amizade de muitos anos. Ele sabe perfeitamente que esta amizade e este respeito são mais fortes que as decisões políticas momentâneas. Esta amizade e respeito são muito superiores a qualquer arranhão que possa ter acontecido neste processo. Eu lamento profundamente. Toda minha intenção era no sentido de oferecer o nome do ex-governador numa chapa ao Senado e vocês sabem, nunca escondi, ter a Emília Belinati como candidata a vice-governadora.
Folha - O sr. disse que este quadro de candidaturas, com sua chapa sem nome ao Senado, é fruto de uma maturidade política que vai proporcionar votos a Fernando Henrique. Qual o papel de Álvaro Dias (PSDB) neste quadro?
Lerner - Meu candidato ao Senado era o ex-governador Paulo Pimentel. Respeito a sua decisão. Os fatos levaram a uma possibilidade para o presidente fazer uma campanha aqui no Paraná sem constrangimentos. Isto vai ser muito importante para a reeleição e muito importante para o país. Tenho certeza que há maturidade, mesmo entre adversários - digo, eu e o ex-governador Álvaro Dias -, para um entendimento que é muito importante à reeleição do presidente Fernando Henrique.
Folha - Então existe este acordo branco com Álvaro Dias?
Lerner - Sempre defendi uma coligação normal com o PSDB. Não foi esta a posição da nossa convenção. No momento em que não foi aceita a coligação normal deixou de existir este acordo branco. O que aconteceu é que não conseguimos encontrar na última hora um candidato ao Senado. Eu sempre sinalizei com a possibilidade de coligação, mas a resposta que vinha do outro lado não era a mesma. Mas acho que agora são águas passadas.
Folha - Que forças atuaram na noite em que se substituiu a candidatura a vice de Paulo Pimentel por Emília Belinati?
Lerner - Não atuaram forças. Eu definiria como uma forte intuição minha de que esta era a solução melhor, respeitando as posições. Afinal, nós estamos lidando com pessoas que a gente tanto gosta. Sempre procuramos a melhor solução. Houve um momento de uma intuição forte de que, no meu entender, esta era a melhor solução e a responsabilidade é minha. Sinto que isto tenha magoado pessoas que eu quero muito bem.
Folha - O sr. é sempre lembrado como virtual candidato à presidência da República. Depois desta eleição ao governo do Estado, esta seria a caminhada natural?
Lerner - Você acha que eu, batendo pênalti agora, vou pensar na próxima Copa?! (risos). As pessoas que me conhecem bem sabem que sempre me concentro na tarefa do momento. Não adianta pensar em coisas muito à frente. É só analisar a história política brasileira e ver que isto não funciona. Meu projeto é a reeleição e não penso nada além deste horizonte.
Colaborou: Luciane Tonon
O Banestado não vai acabar
Arquivo FolhaRevideLerner: Se o Estado estivesse tão mal como dizem os opositores, eles não estariam interessados em assumirFolha - Por que o sr. se convenceu de que a privatização é a melhor saída para a crise do Banestado, cujo rombo é hoje, oficialmente, de R$ 4,1 bilhões?
Lerner - O Banestado vinha sofrendo um problema crônico já há muitos anos. Na verdade, acumulava inadimplência, falta de pagamentos. Já recebemos o Banestado com o Banco Central querendo fazer intervenção. Seguramos esta intervenção investindo, colocando recursos do orçamento para ajudar o banco do Estado. Chegou um momento, quando começou aumentar os juros, que a situação ficou insustentável, porque nós teríamos que retirar recursos dos programas sociais, de escolas, de hospitais para ficar socorrendo o banco do Estado. Aí decidimos. Chega de ficar cobrindo inadimplência e falta de pagamento dos poderosos, que vinham de governos anteriores. Chega de fazer isso e vamos ajudar aqueles que realmente precisam de financiamento a longo prazo. Por isso que nós decidimos fazer o saneamento do banco.
Folha - Mas por que o banco fazia financiamentos a longo prazo?
Lerner - Porque os governos dos anos anteriores tinham acabado com o Badep. O Badep é que emprestava dinheiro para o empresário a longo prazo. Então, como não havia esse dinheiro mais, foram ao banco do Estado. O Banestado é um banco comercial; ao emprestar dinheiro com juros altos e prazos curtos é claro que o pessoal não conseguia pagar. É claro que quem vai montar uma indústria não pode ter prazo comercial, tem que ter prazo de fomento, prazo mais longo, e por isso que foi acumulando inadimplências.
Folha - A oposição é contra a privatização e vai usar isto na campanha. Como o sr. pretende reagir?
Lerner - Ninguém está pensando em vender o banco do Estado. Nós estamos ampliando o poder do banco do Estado. Agora, com que moral a oposição, que criou problema no banco do Estado, vai querer colocar qualquer tentativa de impedir a solução para o banco? Foram eles que criaram o problema do banco. A palavra rombo, é bom que se diga, é mal usada. O que está sendo feito é um saneamento. O que acontece no Banestado é 10% do que ocorre em outros bancos estaduais, como o Banespa. O banco do Estado ainda vai ser muito disputado e o próprio governo continuará participando da instituição.
Folha - Quem causou a crise no Banestado?
Lerner - A política entrou no banco nos governos anteriores, ao se financiar poderosos que não pagavam. Eu quero dizer que de toda situação do Banestado, 70% dos problemas surgiram nos governos anteriores. Nós também tivemos inadimplências, mas pegamos o momento dos juros mais altos. O Banestado não vai acabar, vai ficar muito mais forte, porque todos querem se associar a ele. O que nós vamos trazer é mais sócios da iniciativa para um banco com 350 agências. Todos têm interesse. Então, o banco vai ficar muito mais forte.
Folha - O governo do Estado vai criar uma agência de fomento?
Lerner - Colocamos como condição na privatização do Banestado a criação de uma agência de fomento. Esta agência já começa com recursos. Nós vamos começar a ajudar o pequeno e médio empresário. E que fique muito claro: chega de bancar os poderosos e vamos bancar os pequenos.
Folha - O Estado está mal financeiramente?
Lerner - Se nossa situação tivesse tão ruim financeiramente, como dizem os opositores, eles não estariam tão interessados em assumir o governo.





