Sem-terra invadem Ministério da Fazenda
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quinta-feira, 14 de abril de 2005
Leonardo Souza e Iuri Dantas<br>Folhapress 
Brasília - O Ministério da Fazenda virou ontem por mais de seis horas um acampamento de sem-terra. Numa ação rápida e inesperada, centenas de membros do MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra) surpreenderam os seguranças e invadiram o prédio no fim da manhã. Os andares do edifício foram tomados, inclusive o do ministro Antonio Palocci Filho, apesar de seu gabinete ter sido preservado.
Idosos, mães com crianças no colo e famílias inteiras fizeram dos corredores do ministério um assentamento. Chegaram por volta de meio-dia e só saíram às 18h30 de forma pacífica, depois de quase três horas de negociação com representantes da Fazenda, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e da Casa Civil.
Segundo a Polícia Militar, cerca de 500 sem-terra conseguiram entrar no edifício. Os coordenadores do protesto falavam em 1.200 manifestantes dentro do prédio principal da Fazenda, onde trabalham cerca de 1.100 servidores. ''É a primeira vez que integrantes de um movimento social ocupam o andar do ministro'', comemorava Davi Pereira da Silva, um dos coordenadores do MLST. A Fazenda já foi invadida antes, mas de fato é a primeira vez que manifestantes chegam ao gabinete do ministro.
O MLST é um dissidência do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), ligada diretamente ao PT, segundo os coordenadores do movimento, filiados ao partido. Em entrevista concedida antes de deixar o prédio, a coordenação do MLST ressaltou que a invasão foi um ato de ''apoio ao governo e à política agrária do ministro Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário)'', mas de repúdio à política econômica.
''Não vim aqui como dirigente nacional do PT, mas da coordenação nacional do MLST. O governo não é nosso adversário, não são nossos inimigos. Temos certeza de que o governo funciona bem sob pressão'', afirmou Bruno Maranhão, da coordenação do movimento. Ele pertence à direção nacional do PT e à tendência Brasil Socialista, da ala radical do partido. O ministro Miguel Rossetto participa da Democracia Socialista, outra ramificação radical do partido.
A lista de reivindicações continha sete itens. O principal deles, que o governo liberasse integralmente os recursos do Orçamento destinados à reforma agrária. Da parte do governo, os sem-terra deixaram o ministério apenas com a promessa de que seriam estudadas formas de atendê-los. ''Não vão sair daqui com o cheque na mão. É só um encaminhamento'', disse Lício Camargo, secretário-executivo-adjunto da Fazenda, encarregado de tratar com os sem-terra.
Já de acordo com os manifestantes, o governo prometeu apresentar em 15 dias uma proposta de renegociação das dívidas dos pequenos agricultores. Deve acontecer também, segundo o MLST, uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros Palocci e Rosseto. O ministro da Fazenda já havia deixado Brasília quando o prédio foi invadido. Viajou pela manhã para São Paulo. De lá, seguiria para Washington (Estados Unidos), onde participará do encontro anual do FMI (Fundo Monetário Nacional) - um dos alvos contra os quais os sem-terra protestavam. Os líderes do movimento contaram que já sabiam da ausência de Palocci quando organizaram o protesto.
Com a exceção do secretário-executivo do ministério, Bernard Appy, todos os demais secretários da Fazenda também não estavam no prédio.
Todas as críticas e manifestações contra o governo eram direcionadas ao ministro. ''Arroz, feijão, Palocci é um ladrão'', era um dos ''gritos de guerra'' bradados repetidamente.


