SEM JEITINHO - Voto não tem preço, mas traz conseqüências
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quarta-feira, 16 de abril de 2008
Érika Gonçalves<br>Reportagem local 
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propôs esse ano na 46ªAssembléia Geral, em conjunto com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e outras entidades que compõem o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), projeto de lei de iniciativa popular para impedir a candidatura de pessoas com antecedentes criminais. Políticos que renunciaram a mandato para escapar de penalidades também ficariam proibidos de participar de eleições.
Em visita à Londrina, o cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo, primaz do Brasil, falou sobre essa proposta, sobre a corrupção e sobre a participação dos padres na política.
O senhor acha que a corrupção está aumentando?
Estamos no tempo em que realmente a corrupção aumenta. Muitas vezes, quando pensamos em corrupção, pensamos só naquele que toma a iniciativa, aquele que é o ativo. Nunca falamos da corrupção passiva e isso é que me preocupa, porque aquele que se deixa levar pelo corruptor se torna corrompido, ele participa e as conseqüências são por isso cada vez mais desatrosas. E no fim cria-se uma mentalidade de que levar alguma vantagem não é mal.
Esse aumento se dá por que as pessoas já se acostumaram, acham normal a corrupção?
Sim. Tantas pessoas se deixam corromper, então o povo pensa se eles fazem isso e não acontece nada, também vamos fazer. É triste vermos esse estado.
Há alguma ação para freá-la?
Eu não vejo. Se nós tivemos mensalão, mensalinho e outras coisas que deram em nada, CPIs que inocentaram todos, então eu não vejo nenhum sinal para dizer que está sendo combatida e corrigida essa situação.
Como a Igreja está vendo esses escândalos? Até porque, em parte, a CNBB apoiou o atual governo...
A CNBB não apo-iou. Pessoas, até bispos, apoiaram. Mas a imensa maioria não apoiou o PT nem outros partidos. Essa é uma questão de eleitores. Todos nós somos eleitores e não pensamos do mesmo modo. Pensamos sim, aquilo que é contra a moral, porque o sétimo mandamento vale para todo mundo. Sentimos, da parte dos bispos lá em Itaici (SP), um desalento. Não acreditamos que todo mundo esteja corrompido, tantas pessoas dão exemplo de fidelidade, de correção no seu comportamento, fazem tudo de acordo com a consciência, movidas por uma motivação de fé e isso é importante. Realmente ficamos tristes de ver tanto sofrimento, o povo tantas vezes enganado e as necessidades do bem comum estão aí.
Qual foi o resultado da Conferência da CNBB em relação ao projeto de lei sobre a corrupção?
Houve uma preocupação de fortalecer a lei contra candidatos corruptos. Se fez e se faz muito esforço para acabar com essa Lei ou de mitigar de tal modo que ela fique inutilizada. Realmente estamos querendo, pedindo e procurando que todas as pessoas de bem se unam e mantenham esta lei, que é um meio para ao menos poder interferir nesta onda.
Como o senhor vê a participação dos padres na política?
Temos a nossa missão, a nossa função. Deixemos aos leigos o que é próprio dos leigos, os fiéis cristãos. Às vezes interferimos tanto na vida querendo falar pelos próprios leigos, eles que deveriam falar de acordo com a sua consciência cristã, em todos os setores da vida humana. Eles devem exercer a sua missão, que não é apelar para o bispo. Os bispos não são a Igreja. Na verdade, todos os batizados formam a Igreja. Existem tantos setores que apelam para o bispo mas precisam apelar para aquelas pessoas com competência na sua área, seja educação, seja saúde, para que elas se manifestem e falem com maior propriedade do que nós. Poderemos falar enquanto se apelar para a parte moral, esta referência a Deus, mas as últimas análises, mais objetivas, mais competentes de acordo com o objeto analisado, os leigos podem e devem assumir.
O senhor sabe da cartilha que está sendo distribuída pela Arquidiocese de Curitiba com orientações sobre as eleições?
Sim. São cartilhas que repropõem sempre aquilo que em toda parte estamos fazendo. O arcebispo lá tomou a frente de fazer esta cartilha, não é a primeira vez em Curitiba e também em tantas outras Dioceses do Brasil, para facilitar, mostrar ao eleitor católico, cristão, o valor do seu voto. O voto não tem preço, mas tem conseqüências. Se não votamos bem, não é de se admirar o que vemos aí. E acompanhar e exigir do seu eleito que cumpra o seu dever. Que ele procure fazer o bem comum.
O que o senhor pode dizer em relação aos novos pecados?
O que houve não foram acréscimos de pecados, porque o que está já faz parte da Revelação e também da razão, já há definição. O que acontece é que hoje se explicita mais todo o conteúdo de um pecado ou de um mandamento da Lei de Deus. Tem certas coisas hoje que são traduções do que já era preceituado pelo mandamento.


