Curitiba – A duas semanas das eleições, o alvoroço político instaurado pela divulgação de trechos de supostos depoimentos prestados pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, na sede da Polícia Federal (PF), ainda permanece e não deve ter um fim a curto prazo. A Procuradoria Geral da República (PGR) acatou um pedido feito pela força-tarefa que atua na Operação Lava Jato para prorrogar as investigações por pelo menos mais seis meses. Isto quer dizer que os trabalhos dos procuradores de Justiça vão se estender pelo menos até fevereiro de 2015. O possível envolvimento de senadores, governadores, ministros e parlamentares, além de outros ex-diretores da Petrobras, num esquema de corrupção dentro da estatal petrolífera, foi o último e mais conturbado episódio da Lava Jato, que completou seis meses na última semana.
Deflagrada no dia 17 de março, a investigação da PF e Ministério Público Federal (MPF) apura um mega-esquema de lavagem de dinheiro de cerca de R$ 10 bilhões que, a princípio, envolvia quatro organizações criminosas lideradas por doleiros: Alberto Youssef, Nelma Kodama, Carlos Habib Chater e Raul Henrique Srour.
O MPF, por meio de uma força-tarefa implantada no mês de abril, ofereceu dez denúncias acatadas pela Justiça Federal do Paraná e transformadas em ações penais. Ao todo, 55 pessoas se tornaram réus dos processos, entre elas o doleiro Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, que acabaram se tornando os alvos principais da Lava Jato.
O vazamento dos supostos depoimentos do ex-diretor da estatal, entretanto, fizeram com que os holofotes recaíssem sobre uma ação penal em particular, a que trata de desvios de recursos da obra da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.
Este processo ganhou ainda mais destaque quando autoridades suíças bloquearam contas identificadas em cinco bancos daquele país, com US$ 28 milhões, e que teriam como beneficiários o ex-diretor da Petrobras, familiares dele, além de um funcionário ligado a Youssef. Segundo as investigações, tais contas seriam alimentadas com recursos desviados durante as obras da refinaria em Pernambuco.
A descoberta destes valores no exterior, inclusive, serviram de base para que o MPF pedisse uma nova prisão de Costa no dia 11 de julho. Ele havia sido liberado no dia 19 de maio após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que chegou a suspender as ações penais da Lava Jato por 20 dias. Na época a defesa do ex-diretor da estatal alegou envolvimento de pessoas com foro privilegiado nas investigações para questionar a competência da Justiça Federal do Paraná. Entre os parlamentares citados estavam o londrinense André Vargas (sem partido-PR), entre outros.

AVANÇO

Para o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, porta voz da força-tarefa, em seis meses o avanço das investigações foi significativo e, para isso, foi fundamental ter mantido as prisões durante este período. "É muito raro e difícil você conseguir manter peças fundamentais dentro da investigação presas por este tempo. Hoje estamos avançando a passos largos para uma terceira etapa da Lava Jato. Infelizmente muito destes assuntos é de natureza sigilosa e não podemos divulgar nada ainda, mas estamos caminhando bem e realmente para seis meses o balanço é impressionante", afirmou ele, em entrevista à FOLHA.
Segundo o procurador, algumas defesas, como as dos doleiros Alberto Youssef e Carlos Habib Chater, ainda tentam questionar a competência da Justiça do Paraná em julgar os processos e também pedem a nulidade das ações no Superior Tribunal de Justiça (STJ). "Existem estes empecilhos que podem vir a atrapalhar o andamento das investigações, mas ainda não tem nenhuma decisão favorável à defesa dos réus neste sentido. Tudo está caminhando da maneira como imaginávamos que fosse acontecer", completou.

ACORDO

O MPF não confirma a existência de uma delação premiada em andamento com o ex-diretor da estatal. Sabe-se, entretanto, que pelo menos outros dois réus fizeram colaborações: Luccas Pace Júnior (operador de câmbio e considerado o braço-direito da doleira Nelma Kodama) e Carlos Alberto Pereira da Costa (advogado e considerado um laranja de Youssef). Ambos já estão soltos. Ediel Viana da Silva (apontado pelo MPF como laranja e braço-direito do doleiro Carlos Chater) seria a terceira pessoa disposta a colaborar com as investigações, mas ainda não há nenhuma confirmação oficial sobre o procedimento.
"Antigamente a gente soltava quem fazia a delação e colocava a pessoa para produzir provas, mas hoje em dia não tem como fazer isso. O problema é que o povo está neurótico por causa disso e, mesmo que tenha um acordo, este é um processo longo e extremamente sigiloso. Dura meses entre negociar, assinar, prestar depoimentos e ter um resultado. A palavra de um possível delator pode servir para notícia, mas somente a palavra, na prática, não é suficiente para uma condenação, sequer para oferecimento de uma denúncia. Temos que ir atrás de provas, documentos e indícios do que está sendo dito", ressaltou o procurador da República.
Lima reconhece ainda que, como os órgãos envolvidos na investigação não estão falando, há problemas em boa parte das informações que estão sendo divulgadas pela imprensa nas últimas semanas. "Deste jeito, ocorre muita suposição. Tenho visto muitos erros, muito chute, dando atribuição para nós que não são verdadeiras", afirmou.

DOLEIRO

O MPF reforçou que ainda não existe nenhum contato com o doleiro Alberto Youssef no sentido de caminhar para uma possível delação premiada. O órgão lembrou também que não faz propostas a nenhum réu, como foi divulgado pela defesa do londrinense. Porém, segundo o procurador, "não é o caso de negar a possibilidade de conversar só porque ele tenha quebrado uma delação anterior". "Tudo depende. É um preço que se paga pelo acordo, e ele tem que estar disposto a isso. Claro que é um preço bem mais alto do que o acordo original feito anos atrás. A lista de réus tentando colaborar é grande, mas tem que ser avaliado se o que os interessados em auxiliar as investigações tem a dizer é algo realmente relevante. Eles sabem que temos muitas provas", reforçou.

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