A definição em segundo turno das eleições municipais em 31 das maiores cidades do País, incluindo os três principais colégios eleitorais (São Paulo, Rio e Belo Horizonte) indicaria uma tendência também para as eleições de 2002. A repetição daqui a dois anos do quadro de disputa deste domingo significa, portanto, que é alta a probabilidade de que a eleição presidencial seja decidida em dois turnos, produzindo um clima de crescente incerteza sobre o futuro do programa de estabilidade econômica e reformas estruturais iniciado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
O prognóstico de uma competição acirrada para os governos dos Estados economicamente mais fortes e de um cenário de disputa em segundo turno para a Presidência da República já está se tornando fator relevante nas avaliações dos dirigentes dos grandes partidos.
O presidente Fernando Henrique, dizem eles, compartilha dessa análise. Ele aponta três dificuldades para que se repita o cenário que o levou a vencer a disputa duas vezes no primeiro turno: a existência de muitas forças políticas concorrentes, o que levou o eleitorado a pulverizar a distribuição do poder entre elas nestas eleições; a divisão política da sociedade que representa um bloqueio a uma vitória de qualquer um dos lados em uma só rodada; faltará em 2002 um elemento agregador um programa de governo ou um líder carismático capaz de entusiasmar a metade do País. Em outras palavras, não há hoje uma força ou uma personalidade dominante na sociedade brasileira.
A antecipação deste cenário indicaria, também, que até outubro de 2001, quando oficialmente será deflagrado o calendário eleitoral do ano seguinte com o fim do prazo para filiação partidária dos pré-candidatos, as decisões de política econômica e de investimentos estarão geralmente associadas a análise de um conjunto de fatores de risco.
Não é difícil imaginar, dizem as lideranças consultadas, que entre esses fatores terão peso especial o processo de escolha do candidato ou dos candidatos da coalizão governamental construída por Fernando Henrique, a instabilidade das relações parlamentares na base de apoio do Palácio do Planalto e os movimentos das forças oposicionistas de esquerda e centro-esquerda, em busca de alianças que as tornem mais competitivas. Além disso, o mais provável é que nesse quadro os pré-candidatos da oposição se mantenham na liderança das pesquisas sobre as preferências do eleitorado, tendo à frente dos pretendentes governistas Luiz Inácio Lula da Silva, Ciro Gomes e Itamar Franco.
Em resumo, pode-se dizer que aumentará nos próximos meses a percepção negativa do Brasil como uma região de incertezas elevadas em matéria de política econômica, uma vez que o oposicionismo brasileiro tem se caracterizado pela defesa de uma ruptura com o programa do atual governo, que denominam neoliberal e subalterno à globalização dos mercados.