SEGUNDO TURNO - 'Sou agregador. Ninguém pode fazer tudo sozinho'
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Catarina Scortecci, Edson Ferreira, Loriane Comeli e Paula Barbosa Ocanha 
FOLHA - Se eleito qual vai ser a participação do seu tio Antônio Belinati na administração municipal? Ele pode efetivamente ocupar um cargo?
Marcelo - Nenhuma.
Por quê?
Porque ele saiu da vida pública, partidária. Ele mantém o programa dele de televisão, de rádio e tem projetos futuros nesse sentido. Essa pergunta tem sido feita reiteradas vezes pra gente, eu acho pertinente, mas se feita para todos os candidatos. Fica a sugestão para que se faça em relação aos demais candidatos, o que não foi feito no primeiro turno.
Em relação a que exatamente?
É só você analisar. Quando o Belinati foi prefeito, eu era estudante de Medicina. É bom se colocar que o Belinati foi eleito quatro vezes prefeito, tem grande obras sociais na cidade e eventuais erros que tenham ocorrido na administração dele estão sendo analisados na Justiça. E eu não vou renegar minha família. Não vou. Quem renega sua família não merece ser vereador, não merece ser prefeito, não merecer ser nada. Não vou renegar minha família. A imprensa e até outros candidatos têm utilizado deste expediente, têm perguntado sobre isso, o que eu acho pertinente, mas, agora, tem que ficar claro uma coisa: eu sou o Marcelo Belinati, eu sou médico formado pela UEL, me formei em Direito pela UEL, estou há oito anos na vida pública - a Câmara de Vereadores pegando fogo e não respondo a nenhum processo. Vocês sabem da minha postura ética, séria, coerente. Por que, em nenhum momento, nenhum candidato questionou a minha vida pública? Porque não tem uma vírgula. Eles podem fuçar, revirar, olhar com uma lupa.
Qual a participação do seu tio na sua campanha eleitoral?
Claro que ele está (participando). A participação dele tem sido da mesma maneira que tem sido nas outras eleições: a nossa família é muito unida. Todas as minhas tias, meus tios estão participando da campanha.
O sr. mencionou as diferenças com seu tio. Há pontos de convergência entre vocês dois?
Eu penso que na questão humana, o Belinati é uma pessoa muito humana, que tem muito coração.
O sr. vê semelhanças entre a administração de Belinati e de Barbosa Neto (PDT), também cassado pela Câmara?
Eu não tenho como fazer esta análise porque quando o Belinati foi prefeito eu era estudante de Medicina, então eu não acompanhava tão de perto esse processo político. É claro que a gente vivenciou todos esses acontecimentos, mas da ótica familiar, não sob a ótica política. A questão do prefeito Barbosa eu acompanhei já participando do processo político. São situações diferentes.
O seu grupo político apoiou Barbosa Neto no ''terceiro turno'', em 2009. Qual a ligação?
Eu não apoiei.
Mas seu grupo apoiou...
O Belinati apoiou o Barbosa. Eu não apoiei o Barbosa. Não foi uma deliberação partidária, foi mais uma questão pessoal do Belinati. E isso mostra bem esse caráter da minha independência.
Quais os pontos positivos da administração do Barbosa?
Todas as administrações têm pontos positivos e pontos negativos. Pontos positivos das administrações anteriores eu vou manter e melhorar. Pontos negativos que eventualmente tenham ocorrido vão me servir de alerta para que jamais ocorram novamente. No caso do Barbosa, a administração foi mais cuidadosa com o corte do mato, cuidados com a cidade, gosto das flores nos canteiros centrais, as canaletas exclusivas para ônibus, mas precisa ser feita de forma mais cuidadosa, o restaurante popular, as moradias populares, mas faltou estrutura adequada, a Guarda Municipal... Tem vários pontos positivos. Nem todo mundo é de todo bom e nem todo mundo é de todo ruim. A gente tem que ter a humildade suficiente para reconhecer os pontos positivos do adversário.
E quais os pontos negativos?
Eu penso que todos esses problemas que ocorreram na administração é muito ruim para a cidade.
O ex-prefeito Barbosa tentou revisar a planta de valores do IPTU e não obteve sucesso. Que postura o sr. terá sobre isso?
Da mesma maneira como me coloquei como vereador, votando contra o aumento do IPTU.
O sr. acha que não é necessária nem a revisão apontada pelos técnicos da Secretaria de Fazenda, que apontam a necessidade de atualizar o valor venal dos imóveis que se valorizaram muito nos últimos anos?
Da maneira como veio o projeto (do Barbosa), de uma maneira totalmente injusta, existiam locais que teriam aumento de imposto de 500%, 600%. Ninguém aguenta - o brasileiro tem uma das maiores cargas tributárias do mundo. Existe essa distorção ao longo dos anos? Claro que existe, mas essa questão não é para ser analisada e corrigida de uma vez só.
O que o sr. vai fazer então? Vai corrigir a planta de valores?
Não, não vou corrigir a planta de valores.
A distorção vai permanecer?
Não, não é que vai ficar a distorção. Isso aí tem que ser amplamente debatido com toda a sociedade.
O sr. vai convocar este debate?
Eu penso que os setores envolvidos é que devem chamar este debate. Eu, particularmente, sou contra todo e qualquer aumento de tributação. Há outras maneiras de aumentar a arrecadação. Eu não vou puxar essa discussão, mas também não nego que houve esta distorção.
O sr., pelo resultado das urnas, tem maioria na Câmara. Como vai ser a escolha do secretariado? São técnicos, pessoas indicadas pelos vereadores, pelos partidos?
Eu não tenho compromisso em relação a cargos nem com o partido, nem com pessoas, nem com ninguém. Meu compromisso é com Londrina. Vamos administrar pessoas sim, mas, técnicos, pessoas que tenham experiência comprovada nas mais diversas áreas, mas que também tenham sensibilidade humana e social. Que não enxerguem apenas números, mas enxerguem as pessoas por trás desses números. Esse vai ser o perfil, porque é o meu perfil. Eu sou uma pessoa agregadora, de perfil conciliador e eu penso que é esse o caminho.
Com uma coligação com 14 partidos será possível manter apenas as nomeações técnicas? Como o sr. vai reagir se houver pedidos de cargos das pessoas desses partidos?
Não existe compromisso nem com pessoas nem com partidos para a nomeação de cargos.
Qual é o compromisso então?
O compromisso com os 14 partidos é de um plano de governo de transformação da cidade de Londrina. Ideologia política, forma de pensar, existe uma convergência. Se fizer uma análise, a grande maioria dos partidos que compõe a nossa aliança compõe também a base do governador Beto Richa. Aliás, o governo da presidente Dilma tem cerca de 18 partidos na base. O governo do Beto Richa também. E, além disso, os partidos políticos são compostos por pessoas da sociedade. Tem muita gente boa dentro dos partidos políticos. Querer generalizar e usar um discurso de criminalizar qualquer pessoa que tenha militância política partidária... É através da boa política que podemos transformar uma cidade, o estado, o país.
Mesmo que o senhor não concorde com isso (com as nomeações exclusivamente políticas para cargos), não pode haver pressões?
Eu não cedo a pressões. Posso dar um exemplo? Votar contra a Lei da Muralha agora é fácil, depois de tudo o que aconteceu (prisão do empresário Anderson Fernandes, por supostamente ter oferecido dinheiro ao vereador Roberto Fú) e votar contra em 2005 e em 2006, eu votei. Em 2011, já tinha acontecido os problemas, eu votei de novo. Não é só o exemplo da Lei da Muralha, todos os outros exemplos, o aumento para os vereadores... Eu não sou político profissional, sou médico, sou formado em Direito, eu atuo na área, eu sou chão de fábrica, sou trabalhador da saúde, não dependo de política. Em todas as minhas eleições foi assim. Acabou a eleição de vereador no domingo, no outro dia eu estava de plantão trabalhando e essa vai ser a mesma coisa, dependendo do resultado. Não tenho compromisso com partidos nem com pessoas, tenho compromisso com Londrina. Eu sei o tamanho da minha responsabilidade. Agora, sob a ótica dos apoios é importantíssimo. Londrina precisa passar por um grande processo de resgate em todas as áreas e para isso nós precisamos de apoio sim. De todos os segmentos políticos, da sociedade, da igreja e da população. Do governo do Estado, apoio do governo federal, dos deputados federais, estaduais, para que a gente possa conseguir os recursos necessários para a cidade. Quem acha que sabe tudo, não sabe nada, é até bíblico. Quem acha que pode fazer tudo sozinho... Eu não penso assim. E já liguei para todo mundo para pedir o apoio para a cidade.
O senhor mencionou agora há pouco a sua atuação na Câmara. Pode ter faltado da Câmara um caráter mais fiscalizador, em relação às contas do Executivo, já que depois que o ex-prefeito foi cassado se revelou um rombo gigantesco no orçamento? Os vereadores poderiam ter fiscalizado melhor isso?
Não de minha parte. Eu sempre atuei, desde que entrei na Câmara, como vereador de oposição ao ex-prefeito Nedson, depois de oposição ao Barbosa Neto, mas de forma respeitosa. Quando o projeto era bom, votava favoravelmente, se era ruim, tentava melhorar o projeto e se não fosse possível votava contra.
E em relação ao rombo, Marcelo? Ninguém viu antes?
O que se coloca é que o rombo é contábil. Estou dando a minha opinião pessoal, até porque eu estou afastado da Câmara alguns meses. Começaram a ocorrer todos esses problemas políticos em Londrina e se perdeu o controle de gastos, das contas públicas. Passou a se gastar não de forma planejada e organizada.
Se eleito, o sr. vai ter maioria na Câmara. Aliados fiscalizam o Executivo?
É obrigação. Eu quero que eles fiscalizem. A relação entre Poder Executivo e Legislativo deve ser respeitosa, são poderes no mesmo plano, no mesmo nível. Independente do partido do vereador, é obrigação dele cobrar. A fiscalização do vereador hoje é muito mais dos problemas do cotidiano da sociedade, do que jurídica ou contábil. Na maioria das vezes, as ações que ocorrem de procedimentos investigativos o Ministério Público sempre se antecipa à ação do Poder Legislativo por ter outros mecanismos que a Câmara não detém. É uma constatação clara, é uma falha que existe e precisa ser corrigida.
O senhor acredita em ideologia partidária? O seu partido pensa o quê sobre isso?
Existem vários apontamentos. No Brasil hoje, na verdade, são inúmeros partidos. Eu acredito sim em ideologia, mas a gente tem que ser claro, também, que cada região e cada cidade tem a sua peculiaridade. Então muitas vezes você pode ter uma ideologia próxima de determinado partido político, mas determinado partido político tem um grupo que não abriria espaço para você participar. Vamos falar o português claro, eu tenho muita proximidade ideológica com o PSDB, afinidade ideológica com o PSB, mas cada um destes partidos tem o seu controle estadual e o seu controle local também e para você, muitas vezes, militar na política, não teria o espaço necessário para participar do processo eleitoral. Independente da cor político-partidária, eu acredito muito nas pessoas, e acredito também que tem pessoas boas em todos os partidos políticos, até dos partidos adversários.
Como será a relação entre o sr. e os doadores de campanha, levando-se em conta o recente escândalo dos uniformes, no qual as fraudes seriam para pagar dívidas de campanha com dinheiro público desviado?
Desde que não tenha interesses espúrios por trás dela, acho que a relação tem que ser institucional. Instituição partido político e empresa. Não é possível um empresário acreditar num projeto político? Quando a cidade vai bem, é bom para o empresário, é bom para as pessoas. Vocês estão muito céticos com relação a isso. A população está cética com os políticos, mas com razão, porque liga a televisão: escândalo. Abre o jornal: escândalo. Esse descrédito da classe política se dá em razão dos próprios políticos. Agora, tem gente boa também na política, assim como em todas as áreas tem gente boa e tem gente ruim.
Como que o sr. atuaria para evitar desvios e corrupção em um eventual governo?
Não vai ocorrer. Sabe por quê? Pelos meus princípios, pela minha educação, pela minha honradez, pela minha história de vida. Se tem uma coisa que eu prezo, é o meu nome. Eu quero que meus filhos andem de cabeça erguida com muito orgulho do pai. Não vai ocorrer isso. Nós assinamos um termo de compromisso importante com o Observatório de Gestão Pública. São 25 itens. É uma forma de dar mais transparência à administração, de minimizar as chances de ocorrerem erros. Agora, eu não tenho compromisso com o erro. Errou, está fora da administração. A nossa equipe será composta de pessoas técnicas, competentes, honestas.
O sr. será precavido, então, com relação às suspeitas...
Você acha que a postura do Lula é a mesma postura da Dilma? Não é. Nada contra o Lula, eu gosto do Lula, mas a Dilma tem uma postura distinta. Ela é mais firme em relação a essas coisas que ocorriam. A mesma postura nossa será a da Dilma.
E essa será a postura do secretariado?
Com certeza. O secretariado tem que seguir a linha do prefeito. O cara ou segue minha linha ou... Eu sou uma pessoa cordial, que trato bem todo mundo, não ofendo ninguém, o que eu puder fazer para ajudar as pessoas... Eu sou conciliador, eu tenho esse perfil. Agora, eu vou botar um troglodita em alguma secretaria? Não vou. Pode ser o melhor técnico do mundo, mas é um troglodita no trato com as pessoas, não mesmo. Por exemplo, na saúde, na educação... Para mudar um serviço público é preciso que você tenha um servidor que esteja feliz, trabalhando contente, e respeite o secretário por admiração e não por outro motivo. Queremos pessoas comprometidas com o serviço público, para agregar.
Com o salário pago a um secretário hoje, dá para se fazer isso, ter essas pessoas na administração? O sr. pretende adequar o salário?
Essa é uma discussão extremamente complicada. Por isso que falo é que o caminho é se valorizar e se aproveitar o máximo os servidores públicos de carreira. Há muita gente boa. A pessoa na iniciativa privada não vai sair para ir para a prefeitura, a não ser que o tipo de trabalho dela possibilite isso e ela queira contribuir com a cidade, mas é difícil uma pessoa sair da iniciativa privada, diminuir a sua renda para atuar no serviço público, às vezes, um advogado que mantém um escritório... É possível, até porque tem muita gente da iniciativa privada que quer contribuir, quer ajudar. Uma coisa que tenho comigo é que existe um grande sentimento na sociedade de Londrina de que é necessário todo mundo estar unido para fazer esse resgate. Vai ter muita gente que vai querer participar ainda que haja essa disparidade salarial.


