FOLHA - O senhor nunca assumiu um cargo público. O que o leva a crer que tem condições de administrar a Prefeitura de Londrina?
Kireeff - A minha experiência nos diversos campos que já atuei. Já atuei na direção de empresas na iniciativa privada, já fui presidente da Sociedade Rural do Paraná, que, apesar de ser uma instituição privada, tem algumas características de similaridade com o poder público. Fui membro do Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia, da Adetec, participei do Fórum Desenvolve Londrina, do Conselho de Administração do Iapar, entre outros órgãos de relacionamento com as instituições públicas. Esse conjunto de experiência me coloca em condições de administrar Londrina.
Essa justamente é a crítica que se faz: que o sr. tem experiência na vida privada mas poderia não ter sensibilidade para administrar a coisa pública...
Pela lógica, isto não faz sentido por não corresponder à verdade. Somente faria sentido se houvesse uma correlação entre o perfil do administrador com o resultado de sua administração. Tivemos um Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, e um Lula, operário, que ocuparam o cargo de presidente do Brasil e, cá entre nós, ambos com bons resultados.
Na campanha, o sr. insiste no discurso de que não é político, mas já disputou eleição para deputado federal, já trocou de partido duas vezes e está numa campanha política. Por que esta autodefinição de ''não político''?
Minha distinção é com os políticos profissionais, aquelas pessoas que vivem exclusivamente da prática política antiga, que vincula o seu exercício única e exclusivamente à manutenção do poder; que estabelece estratégias que vinculam a ocupação de cargos públicos ao processo eleitoral, já vislumbrando a manutenção do poder, a reeleição e, muitas vezes, a sucessão. Isto que é política tradicional, profissional, que eu não faço parte de forma alguma; jamais ocupei um cargo público remunerado. Jamais indiquei a ocupação de um cargo público em qualquer instância governamental. Isso decididamente me separa da política profissional porque este tipo de política nos entregou uma cidade nas condições em que está. É por isso que minha candidatura rompe com esse processo, afronta essa maneira de fazer política, porque se isso não ocorrer é impossível mudar, é impossível mudar com as mesmas práticas.
E as mudanças de partido?
Na verdade, os partidos é que mudam. Hoje os partidos são aliados, amanhã se opõem um ao outro. Eu não. Continuo apegado às minhas convicções e não abro mão das minhas convicções em razão de conveniência.
Mas, na verdade, o sr. precisará de apoio na Câmara e de um secretariado. De onde virão essas pessoas? Não será necessário se render à ''política tradicional''?
Quanto à governabilidade, ela pode ser sim estabelecida a partir de princípios e a partir do projeto de governo. Tenho absoluta convicção de que isto seja possível. Se a nossa proposta for vencedora, haverá uma clara demonstração de que a sociedade espera uma mudança no comportamento político. Porque esse processo eleitoral nós estamos fazendo de forma diferente. Isso certamente irá impactar na relação entre Poder Executivo e Legislativo.
O sr. não acha que isso vai significar um isolamento?
Não. Eu acredito que haverá a constituição da governabilidade a partir do projeto de governo.
Em troca de quê?
Em troca do resultado. A sociedade vai esperar do vereador resultado, que ele entregue a contrapartida oferecida no processo eleitoral. E essa contrapartida dos eleitos é o serviço público de qualidade. É isso que vai acontecer... Eu defendo a independência sim dos poderes, um poder Legislativo forte, cumprindo as obrigações, sendo uma das principais fiscalizar o poder Executivo. E o Executivo independente e ambos trabalhando e se relacionando institucionalmente. E a gente tem que tomar cuidado com a generalização da Câmara. Não tenho a menor dúvida de que há pessoas eleitas que vão pautar sua atuação no relacionamento institucional.
Mas serão de outros partidos...
A governabilidade se estabelece em função do resultado, porque se um vereador não entregar ou não atender as expectativas do eleitorado ele não vai cumprir a função esperada por este eleitorado. Então, existe uma convergência de interesses em favor do resultado.
O sr. vai conseguir romper com essa política na qual se observa vereador exigindo cargos no Executivo para dar apoio?
Anteriormente todas as pessoas que venceram as eleições em Londrina as venceram através de grandes coalizões no processo eleitoral. Então processo formatado neste tipo de postura ele tem como consequência esse tipo de governabilidade, baseada na troca de cargos. Agora, o processo que se constrói a partir de um posicionamento diferente - se for eleito - vai ter como consequência um relacionamento totalmente diferenciado.
Falando sobre a questão da ideologia. O PSD é um partido novo, foi criado pelo Kassab. Houve muitas críticas quanto à ausência de posição ideológica, de que seria um partido de conveniência. O que o atraiu ao partido?
Liberdade e autonomia. Fui convidado para organizar o PSD em Londrina e a principal condição que eu impus é que eu tivesse total autonomia e liberdade. Por exemplo, eu não aceitei nenhum político com cargo. Pelo contrário, nós começamos realmente um processo de rompimento com a política tradicional. Um espaço onde as pessoas comuns, como nós todas, pudesse, de fato, exercer, seu direito de participar politicamente sem nenhum tipo de contrapartida, sem nenhum tipo de imposição maior.
Qual a ideologia do PSD?
O PSD é o partido social democrático e o estatuto dele dirige as ações neste sentido. É um partido de centro.
O prefeito tem cerca de 30 cargos essenciais, que são seus secretários. O PSD tem quadros, o sr. irá negociar os cargos com outros partidos, de onde virão essas pessoas?
Eu tenho que ter muita cautela ao falar de governabilidade e de cargos antes de vencer as eleições. Temos um grande desafio que é vencer as eleições. Vencidas as eleições, essa ocupação de cargos se dará essencialmente com a valorização do quadro de servidores municipais, com o entendimento com a sociedade civil organizada e nomes que já estejam próximos desse processo eleitoral desde que tenham a qualificação técnica. Não queremos na ocupação da Secretaria de Educação, por exemplo, alguém que não seja um educador e um profundo conhecedor do serviço público municipal de educação. Não poder ser uma indicação eleitoral, alguém que seja apenas bom de voto, tem que ser alguém que seja bom de educação pública, alguém que conheça o processo, alguém que tenha condições de dar continuidade, de aprimorar tudo aquilo que é feito dentro da Secretaria de Educação. A proposta de gestão técnica é uma proposta que se desvincula do processo partidário e do processo eleitoral. É uma proposta de administração em busca de qualidade.
Hoje são aproximadamente 110 cargos comissionados na administração. O sr. acha que há necessidade de ampliar esse número, reduzir?
Dá para reduzir. Não precisa de tantos cargos. Não tenho nenhuma dúvida com relação a isso.
Como o sr. avaliou a gestão do ex-prefeito Barbosa Neto?
Foi muito ruim. Não conseguiu concluir (o mandato). As contas públicas estão um horror. Realmente, uma gestão fracassada.
Há algum ponto positivo?
Evidente que uma gestão tem pontos positivos. Nós vamos dar continuidade a qualquer procedimento, não vamos romper. Por exemplo, nós defendemos a ampliação do ensino em tempo integral, mas entendemos que isso deve ser feito de forma planejada, de forma que a adequação dos equipamentos públicos se dê de forma adequada para poder abrigar o contraturno de forma correta. É uma proposta boa? É, mas a execução precisa ser aprimorada e é isso o que vamos fazer.
O ex-prefeito Barbosa Neto tentou reajustar a planta de valores do IPTU. Qual é o seu compromisso?
Não vou reajustar.
Mas, não há imóveis que se valorizaram muito desde 2001 (quando houve a última atualização da planta), como na Gleba Palhano, na Zona Sul? Não é um caso de injustiça fiscal? E técnicos da prefeitura apontam a necessidade de revisar a planta...
Mas, a prefeitura precisa recuperar a credibilidade. É preciso se trabalhar de forma correta para eventualmente se pensar em qualquer tipo de contrapartida da sociedade. Não é possível pedir ajuda - porque é isso o que se faz quando se pede impostos à população -se você não fizer a lição de casa primeiro. Tem que primeiro colocar a casa em ordem.
Então, o sr. não descarta o reajuste após ''colocar a casa em ordem''?
Em princípio, não. Eu acredito que se tivermos a casa em ordem, a pressão tributária pode até ser aliviada.
Nesta sua proposta de gestão técnica, como o sr. lidaria com as terceirizações? O sr. pensa em manter este modelo ou aparelhar melhor a máquina pública?
Aparelhar melhor a máquina pública.
Como fazer isso com os recursos escassos?
Com planejamento. Não se pode ceder à tentação do caminho mais curto. Planejamento nenhum é o caminho mais curto. Ele é o caminho mais eficiente. Não estou dizendo que no primeiro dia de governo nós vamos acabar com todas as terceirizações porque isso é impossível, mas temos que caminhar neste sentido.
Em que área o sr. se dedicaria com mais afinco para reduzir as terceirizações?
Na saúde, não tenha dúvida. É a maneira de atender com qualidade e certamente é o ponto mais sensível de relacionamento entre a população e o poder público. Tem que ter qualidade. Nós dimensionamos uma necessidade para a Secretaria de Saúde operar na plenitude e oferecer a totalidade da qualidade dos serviços é de na ordem de 800 servidores.
E essa conta fecha?
No horizonte de quatro anos, nossas contas dizem que é possível atingir esse patamar de 800 servidores. É uma meta estabelecida e é possível ser buscada em quatro anos. Não é inatingível.
Há mais de uma década os candidatos a prefeito prometem fortalecer o Ippul e nunca aconteceu. Por que seria diferente agora? Por que isso não acontece de fato?
Acredito que não haja compromisso, que haja outro tipo de preocupação. A nossa preocupação é realmente fornecer a Londrina a gestão técnica. O orçamento de Londrina em 2012 foi de R$ 1,1 bilhão e o orçamento do Ippul de algo em torno de R$ 2,2 milhões. O foco do gestor se manifesta no orçamento. Evidente que sem orçamento não vai conseguir.
O mais recente escândalo de corrupção envolvendo a Prefeitura de Londrina, o escândalo dos uniformes escolares, tem ligação com empresários, que inclusive teriam dado dinheiro - não declarado à Justiça Eleitoral - para pagamento de despesas de campanha eleitoral. Que avaliação o senhor fez deste episódio?
Teremos independência total dos doadores de campanha. Essa política antiga que a gente está rompendo. É exatamente contra isto que estamos nos contrapondo. O processo político tem que ser modificado. Não pode haver contrapartida empresarial, contrapartida de cargos, tem que ser em torno de princípios, de ideias. Assim é um completo desvirtuamento do processo original. E a gente tem que recuperar isso.
Como candidato, o sr. fala que fará tais e tais coisas se for eleito. Queremos saber sobre as pessoas que vão cercá-lo caso o senhor seja eleito.
Eu sou cauteloso tanto para fazer propostas que possam ser atingíveis, porque senão vira populismo, como tenho cautela para fazer pressuposições sobre o comportamento das pessoas. Mas para que não haja dúvida, eu acredito em governabilidade baseado num projeto de governo e nos princípios que eu defendo.
A classe política está desacreditada no Brasil. O sr. acha que esse perfil que o senhor desenha para si - do novo político - é capaz de superar essa percepção da população?
Espero que minha postura estimule mais pessoas a enfrentar isto que estou enfrentando, este ambiente hostil. Espero que as pessoas que também se sentem indignadas, que sentem que é possível ter uma postura como a minha na condução do processo político-eleitoral, possam colocar seus nomes à disposição sem abrir mão das convicções.
O sr. já presenciou, ficou sabendo ou já denunciou um caso de corrupção?
Acho que não. Não me recordo.
Todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Mas o sr., sendo prefeito, prefere dar o benefício da dúvida em favor da administração pública ou a eventual envolvido em denúncias de corrupção?
Não deve pairar dúvidas sobre a conduta do cargo de confiança do prefeito. Havendo dúvidas, a gente fará sempre a substituição até para haver a tranquilidade para essa pessoa se defender com muito respeito, sem nenhum tipo de prejulgamento. Precisamos de eficiência. A sociedade não pode virar refém de uma crise política.
O sr. é favorável à reeleição?
A princípio, não. Acho que é um problema para o processo democrático.
O sr. foi presidente da Sociedade Rural do Paraná e, em razão desta proximidade, a crítica que se faz é que o sr. poderia estar mais comprometido a atender interesses da ''classe dominante'' em detrimento das outras camadas populares.
Isso é preconceito. Eu não sou preconceituoso. Mas existem pessoas que são preconceituosas. Eu realmente tenho uma relação com o agronegócio. Fui presidente da Sociedade Rural, mas agora estou me apresentando como candidato a prefeito da cidade de Londrina, de todos os londrinenses. Realmente é fruto do preconceito e não se justifica. Até por analogia não se justifica. Como se um médico fosse ser candidato apenas para os médicos. Será que um médico vai governar apenas para os médicos?
O governador Beto Richa (PSDB) apoia declaradamente seu adversário nestas eleições. Como será o relacionamento com ele caso o sr. seja eleito?
O governador tem uma aliança com meu adversário, antiga. Agora, eu conheço o Beto Richa há 35 anos. Nós fomos colegas no Colégio Hugo Simas. Praticávamos natação juntos na Acel. Temos um bom relacionamento e, além disso, o PSD, apesar de não fazer parte dessa aliança eleitoral, faz parte dessa base do governo Beto Richa, inclusive tem secretarias lá. Então, esse tipo de relacionamento institucional entre prefeitura e governo do Estado, tenho certeza, que se dará na maior tranquilidade.

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